A revista "Vida Mundial" e a música popular
Um total de 6 páginas era o espaço ocupado por longa entrevista que a revista "Vida Mundial" fez a José Afonso e que foi publicada no nº 1749 de 15 de Dezembro de 1972.
Começava assim o artigo sob o título "Só Quero Ter O Meu Tamanho Real":
"Por um lado aceito que eu, para as pessoas, represento determinadas coisas. Portanto, para essas pessoas, sou uma realidade que não recuso. Por outro lado, em termos de apreciação, creio que nem aquilo que eu nem aquilo que as cantigas são se pode enquadrar numa bitola tão exigente como aquela que as pessoas me atribuem, nem eu, como cidadão, sou aquilo que me atribuem. Os mitos têm duas realidades. O mito é, normalmente, uma pessoa. E é aquilo que esta presenta na imagem popular. Portanto, há duas realidades. Eu, como pessoa, tenho determinado tamanho; eu, para os outros, tenho outro tamanho, que não é o meu tamanho real; e, para os outros, ainda sou aquele indivíduo cujo mito que é preciso destruir."
Esta entrevista decorreu após a polémica participação de José Afonso no VII Festival Internacional da Canção Popular, no Rio de Janeiro, um festival de canções a eliminar e onde José Afonso, que abriu o festival, não foi bem recebido com a sua "A Morte Sai à Rua". O mesmo aconteceu a Paulo de Carvalho com "Maria, Vida Fria", assim com a George Moustaki, Astor Piazzzola, Richard Harris, todos desclassificados (a vitória foi, já agora, para David Clayton-Thomas, em interregno dos Blood, Sweat and Tears, com "Nobody Calls Me Prophet") .
Céptico em relação à música portuguesa, "A música portuguesa, possivelmente, até não existe", existe sim a música comercial "de duvidoso gosto" e a música tradicional está praticamente inacessível, "está compilada por Jacometti" e nas "zonas mais subdesenvolvidas".
Na sua modéstia não destacava a importância da sua própria contribuição na defesa e desenvolvimento da melhor música popular portuguesa.
Mais um excelente contributo dava com "Eu Vou Ser Como A Toupeira", acabado de gravar entre 6 e 13 de Novembro, e nele estava "A Morte Saiu À Rua". Um momento inesquecível de José Afonso.
José Afonso - A Morte Saiu À Rua
Para uns recordações, para outros descobertas. São notas passadas, musicais e não só...
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
José Jorge Letria - Arte Poética
A Propósito do Programa televisivo Zip-Zip - 1969 José Jorge Letria, hoje mais conhecido escritor de literatura infanto-juvenil e jornalista, foi nos anos 70 um cantautor da nova música portuguesa que florescia no início da década, destacando-se no seu posicionamento anti regime e na procura de sonoridades mais elaboradas que as tradicionais baladas.
Estreia-se no programa televisivo "Zip-Zip" e a primeira edição discográfica data de 1970 com o EP "História do José-sem-Esperança".
Em 18 de Julho de 1969 a revista "Flama" em artigo de análise sobre o "Zip-Zip" publica um depoimento de José Jorge Letria:
"José Jorge Letria, tem 18 anos e é segundanista da Faculdade de Direito de Lisboa. cantor e compositor de baladas, antigo colaborador do «Diário de Lisboa Juvenil», tinha muita coisa a dizer. Eis o que disse e como disse:
«Zip-Zip» é incontestavelmente um fenómeno, porém um fenómeno tardio e como todos os fenómenos tardios já em larga medida contaminado por certos vícios e concepções que são o resultado flagrante de uma espera excessivamente prolongada.
«Zip-Zip» é o quotidiano aprisionado em cada tarde de Sábado, um quotidiano feito programa de televisão, programa esse que nasce quando a semana morre para depois morrer quando a semana nasce. E isto porque «Zip-Villaret» e «Zip-Lumiar» são duas realidades bem distintas, por vezes bem extremamente difíceis de justapor ou identificar entre si. Entre «Zip-Lumiar» e «Zip-Villaret» há dois dias de fermentação, dois dias de adaptação, dois dias de meditação para quem viu o «Zip-Villaret»".
(como se sabe a transmissão do "Zip-Zip" não era em directo, era gravado no Sábado no Teatro Villaret e transmitido na Segunda-feira nos estúdios do Lumiar, pelo meio tínhamos a censura)
Ainda no dizer de José Jorge Letria, em "Canto de Intervenção 1960-1974" de Eduardo Raposo: "O programa veio, em certa medida, consagrar a importância que a canção de intervenção começava a ter na vida cultural do país e no trabalho da resistência".
Com edição "Zip-Zip" sai, em 1971, o Single "Pare, Escute e Olhe", no lado B constava "Arte Poética", texto de Hélia Correia e música de José Jorge Letria.
José Jorge Letria - Arte Poética
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Manuel Freire - Dedicatória
mundo da canção nº 1
Quanto a letras de músicas portuguesas, o nº 1 da revista "mundo da canção" de Dezembro de 1969, terminava com Manuel Freire, um dos mais destacados cantores anti-regime anteriores ao 25 de Abril de 1969. Manuel Freire vai ser presença regular ao longo da vida da revista "mundo da canção".
Quando a revista nº 1 foi editada Manuel Freire tinha 2 EP e 1 Single editados (este último com as 2 primeiras canções do 2º EP dado que a canção " O Sangue Não Dá Flor" tinha sido censurada). Mas é ainda ao 1º EP que a revista vai buscar 2 poemas, respectivamente "Dedicatória" e "Livre".
"Livre" já aqui recordámos e teve enorme importância na luta contra o regime fascista de então, e muito cantada, particularmente, depois do 25 de Abril nos chamados canto livre.
Ficamos com "Dedicatória" que tão boas memórias nos trazem, espero que para todos, bem, para os mais novos a descoberta.
Manuel Freire - Dedicatória
Quanto a letras de músicas portuguesas, o nº 1 da revista "mundo da canção" de Dezembro de 1969, terminava com Manuel Freire, um dos mais destacados cantores anti-regime anteriores ao 25 de Abril de 1969. Manuel Freire vai ser presença regular ao longo da vida da revista "mundo da canção".
Quando a revista nº 1 foi editada Manuel Freire tinha 2 EP e 1 Single editados (este último com as 2 primeiras canções do 2º EP dado que a canção " O Sangue Não Dá Flor" tinha sido censurada). Mas é ainda ao 1º EP que a revista vai buscar 2 poemas, respectivamente "Dedicatória" e "Livre".
"Livre" já aqui recordámos e teve enorme importância na luta contra o regime fascista de então, e muito cantada, particularmente, depois do 25 de Abril nos chamados canto livre.
Ficamos com "Dedicatória" que tão boas memórias nos trazem, espero que para todos, bem, para os mais novos a descoberta.
Manuel Freire - Dedicatória
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Padre Fanhais - À Saída do Correio
mundo da canção nº 1
Francisco Fanhais, mais conhecido por Padre Fanhais, foi tornado público em 1969 no programa televisivo “Zip-Zip” - boas memórias - e rapidamente fica ligado ao grupo de cantores ditos de intervenção assumidamente anti-regime.
Grava em 1969 o EP “Cantilenas” (muito bom!) (a 4 de Outubro estava há 7 semanas nos top dos mais vendidos) e, em 1970, o LP “Canções da Cidade Nova”. O regime e a igreja não lhe perdoam o atrevimento e é assim proibido (três em um) de exercer o sacerdócio, dar aulas e cantar. Em 1971 vai para França onde se torna militante da LUAR e donde regressa no 25 de Abril.
A revista "mundo da canção", no seu número 1 de Dezembro de 1969, para além de fazer capa com o Padre Fanhais inclui a letra de "À Saída do Correio" por ele musicada e interpretada e que cantou no programa televisivo "Zip-Zip".
Ainda em 1969 saiu o LP "Zip-Zip", colectânea de temas que passaram pelo programa, Rui Mingas, Hugo Maia Loureiro, José Barata Moura, Efe 5 eram alguns deles, e que dava início à editora Zip.
Do Padre Fanhais segue ao vivo no “Zip-Zip” o tema “À Saída do Correio”, a anteceder a apresentação feita pelo Fialho Gouveia. Quem se lembra? Aí vai.
Padre Fanhais - À Saída do Correio
Francisco Fanhais, mais conhecido por Padre Fanhais, foi tornado público em 1969 no programa televisivo “Zip-Zip” - boas memórias - e rapidamente fica ligado ao grupo de cantores ditos de intervenção assumidamente anti-regime.
Grava em 1969 o EP “Cantilenas” (muito bom!) (a 4 de Outubro estava há 7 semanas nos top dos mais vendidos) e, em 1970, o LP “Canções da Cidade Nova”. O regime e a igreja não lhe perdoam o atrevimento e é assim proibido (três em um) de exercer o sacerdócio, dar aulas e cantar. Em 1971 vai para França onde se torna militante da LUAR e donde regressa no 25 de Abril.
A revista "mundo da canção", no seu número 1 de Dezembro de 1969, para além de fazer capa com o Padre Fanhais inclui a letra de "À Saída do Correio" por ele musicada e interpretada e que cantou no programa televisivo "Zip-Zip".
Ainda em 1969 saiu o LP "Zip-Zip", colectânea de temas que passaram pelo programa, Rui Mingas, Hugo Maia Loureiro, José Barata Moura, Efe 5 eram alguns deles, e que dava início à editora Zip.
Do Padre Fanhais segue ao vivo no “Zip-Zip” o tema “À Saída do Correio”, a anteceder a apresentação feita pelo Fialho Gouveia. Quem se lembra? Aí vai.
Padre Fanhais - À Saída do Correio
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Paulo de Carvalho/Fluido - A Idade dos Lilazes
mundo da canção nº 1
Nesta passagem pelas letras de músicas portuguesa editadas no nº 1 da revista "mundo da canção" de Dezembro de 1969 chegamos a Paulo de Carvalho.
Lembremos, Paulo de Carvalho saiu dos Sheiks em 1968 e teve até 1970/71 um período bastante interessante. Depois de passagens rápidas pelo Thilo's Combo, e pela formação Banda 4, forma em 1969 os Fluido com quem grava 2 EP e 1 Single que seriam compilados em 1971 no muito bom LP “Paulo de Carvalho”.
Os Fluido associados a uma corrente psicadélica que então começava a influenciar alguns dos conjuntos portugueses, gravavam metade em português e outra metade em inglês, com as interpretações de Paulo de Carvalho a destacarem-se no contexto da época. O EP que agora recordamos é disso exemplo, no lado A dois temas em português e no lado B outros dois em inglês.
A letra publicada no "mundo da canção" era "A Idade dos Lilazes" de Dórdio Guimarães e musicada por Paulo de Carvalho e fazia parte do 2º EP editado em 1969.
Eis então o bonito tema “Idade dos Lilazes”, os arranjos e direcção de orquestra eram do Thilo Krassmann.
Paulo de Carvalho/Fluido - A Idade dos Lilazes
Nesta passagem pelas letras de músicas portuguesa editadas no nº 1 da revista "mundo da canção" de Dezembro de 1969 chegamos a Paulo de Carvalho.
Lembremos, Paulo de Carvalho saiu dos Sheiks em 1968 e teve até 1970/71 um período bastante interessante. Depois de passagens rápidas pelo Thilo's Combo, e pela formação Banda 4, forma em 1969 os Fluido com quem grava 2 EP e 1 Single que seriam compilados em 1971 no muito bom LP “Paulo de Carvalho”.
Os Fluido associados a uma corrente psicadélica que então começava a influenciar alguns dos conjuntos portugueses, gravavam metade em português e outra metade em inglês, com as interpretações de Paulo de Carvalho a destacarem-se no contexto da época. O EP que agora recordamos é disso exemplo, no lado A dois temas em português e no lado B outros dois em inglês.
A letra publicada no "mundo da canção" era "A Idade dos Lilazes" de Dórdio Guimarães e musicada por Paulo de Carvalho e fazia parte do 2º EP editado em 1969.
Eis então o bonito tema “Idade dos Lilazes”, os arranjos e direcção de orquestra eram do Thilo Krassmann.
Paulo de Carvalho/Fluido - A Idade dos Lilazes
terça-feira, 12 de julho de 2016
Luís Cília - É preciso avisar toda a gente
mundo da canção nº 1
Ainda no nº 1 da revista "mundo da canção" editada em Dezembro de 1969, 2 poemas musicados por Luís Cília, "Barca Bela" de Almeida Garrett e "É preciso avisar toda a gente" de João Apolinário. A revista referia-se assim a Luís Cília:
"voz profunda, frágil, nostálgica e sensível com poemas que nos transmitem a esperança, a mensagem do amor, da paz e da comunhão fraternal."
As 2 canções fazem parte do álbum "La Poésie Portugaise de nos jours et de toujours - 1", de 1967, o primeiro de 3 álbuns editados por Luís Cília, em França, na década de 60.
A revista "Vida Mundial" no seu número 1563 de 23 de Maio de 1969 fazia uma pequena alusão a este disco, atribuindo 4 estrelas, muito bom. O álbum não foi editado em Portugal, foi-o em França em 1967 e em Espanha no ano seguinte.
De João Apolinário, poeta, jornalista e combatente anti-fascista, Luís Cília musicou "É preciso avisar toda a gente", "Recuso-me" e "Sei que me espera", recordamos "É preciso avisar toda a gente".
Luís Cília - É preciso avisar toda a gente
Ainda no nº 1 da revista "mundo da canção" editada em Dezembro de 1969, 2 poemas musicados por Luís Cília, "Barca Bela" de Almeida Garrett e "É preciso avisar toda a gente" de João Apolinário. A revista referia-se assim a Luís Cília:
"voz profunda, frágil, nostálgica e sensível com poemas que nos transmitem a esperança, a mensagem do amor, da paz e da comunhão fraternal."
As 2 canções fazem parte do álbum "La Poésie Portugaise de nos jours et de toujours - 1", de 1967, o primeiro de 3 álbuns editados por Luís Cília, em França, na década de 60.
A revista "Vida Mundial" no seu número 1563 de 23 de Maio de 1969 fazia uma pequena alusão a este disco, atribuindo 4 estrelas, muito bom. O álbum não foi editado em Portugal, foi-o em França em 1967 e em Espanha no ano seguinte.
De João Apolinário, poeta, jornalista e combatente anti-fascista, Luís Cília musicou "É preciso avisar toda a gente", "Recuso-me" e "Sei que me espera", recordamos "É preciso avisar toda a gente".
Luís Cília - É preciso avisar toda a gente
domingo, 10 de julho de 2016
José Afonso - Canção de Embalar
mundo da canção nº 1
Continuamos então com o nº 1 da revista "mundo da canção". E continuamos com canções portuguesas das quais a revista divulgava as respectivas letras. Basta chegar à página 10 para encontrar uma das presenças frequentes na revista: José Afonso. Pouco divulgado nos meios de comunicação social, jornais, rádio e TV, José Afonso era uma figura incomoda para o regime então vigente.
O "mundo da canção" transcreve as letras de duas canções, "Natal dos Simples" e "Canção de Embalar", do álbum "Cantares do Andarilho", já de 1968, a par de um texto, transcrito da revista "Vida Mundial" aquando do lançamento do álbum.
Como afirmava o artigo José Afonso, "... infelizmente desconhecido do grande público", "evoluiu, com base na autêntica música popular portuguesa, trazendo até nós, com temas actuais, a balada, a verdadeira voz do povo."
Ainda uma notícia a anunciar o novo LP de José Afonso, "Contos Velhos, Rumos Novos".
Para já, ainda "Cantares do Andarilho" e a bela "Canção de Embalar".
José Afonso - Canção de Embalar
Continuamos então com o nº 1 da revista "mundo da canção". E continuamos com canções portuguesas das quais a revista divulgava as respectivas letras. Basta chegar à página 10 para encontrar uma das presenças frequentes na revista: José Afonso. Pouco divulgado nos meios de comunicação social, jornais, rádio e TV, José Afonso era uma figura incomoda para o regime então vigente.
O "mundo da canção" transcreve as letras de duas canções, "Natal dos Simples" e "Canção de Embalar", do álbum "Cantares do Andarilho", já de 1968, a par de um texto, transcrito da revista "Vida Mundial" aquando do lançamento do álbum.
Como afirmava o artigo José Afonso, "... infelizmente desconhecido do grande público", "evoluiu, com base na autêntica música popular portuguesa, trazendo até nós, com temas actuais, a balada, a verdadeira voz do povo."
Ainda uma notícia a anunciar o novo LP de José Afonso, "Contos Velhos, Rumos Novos".
Para já, ainda "Cantares do Andarilho" e a bela "Canção de Embalar".
José Afonso - Canção de Embalar
sábado, 9 de julho de 2016
Duarte & Ciríaco - Naufrágio
mundo da canção nº 1
Tendo por referência o nº 1 da revista "mundo da canção" editado em Dezembro de 1969, vamos proceder à recuperação de alguns temas da música popular portuguesa, mas também da música espanhola, francesa, brasileira, anglo-americana, etc., cujas letras eram divulgadas por esta revista que tão boas memórias nos deixou.
O índice mostra-nos o conteúdo do nº 1 da revista, que começava, então, um longo percurso.
A primeira letra de uma canção portuguesa surge na página 8, uma música popular dos Açores interpretada por um duo que dava, então, pelo nome de Duarte & Ciríaco.
Duarte & Ciríaco era um duo de açorianos formado, enquanto estudantes, em Coimbra. De curta duração gravaram 2 EP (1969) e um Single (1970). No primeiro EP, intitulado "Nós", destacava-se "Naufrágio", uma canção do folclore açoreano e que foi a mais divulgada (a capa que se vê na foto é do 2º EP e não do 1º onde constava "Naufrágio").
A eles havemos de voltar, para já a recordação de "Naufrágio".
Duarte & Ciríaco - Naufrágio
Tendo por referência o nº 1 da revista "mundo da canção" editado em Dezembro de 1969, vamos proceder à recuperação de alguns temas da música popular portuguesa, mas também da música espanhola, francesa, brasileira, anglo-americana, etc., cujas letras eram divulgadas por esta revista que tão boas memórias nos deixou.
O índice mostra-nos o conteúdo do nº 1 da revista, que começava, então, um longo percurso.
A primeira letra de uma canção portuguesa surge na página 8, uma música popular dos Açores interpretada por um duo que dava, então, pelo nome de Duarte & Ciríaco.
Duarte & Ciríaco era um duo de açorianos formado, enquanto estudantes, em Coimbra. De curta duração gravaram 2 EP (1969) e um Single (1970). No primeiro EP, intitulado "Nós", destacava-se "Naufrágio", uma canção do folclore açoreano e que foi a mais divulgada (a capa que se vê na foto é do 2º EP e não do 1º onde constava "Naufrágio").
A eles havemos de voltar, para já a recordação de "Naufrágio".
Duarte & Ciríaco - Naufrágio
domingo, 6 de março de 2016
Nuno Filipe - Canção à Maneira da Saudade
De alguns nomes da música feita em Portugal nos anos 60 retinha somente o nome e (ou) a lembrança da leitura de algum texto sobre os mesmos enquanto a sua música pura e simplesmente não conhecia ou, na piordas hipóteses, não me lembrava de todo. Por exemplo o Nuno Filipe, a Magdalena Pinto Basto ou até a Teresa Paula Brito, pelo que a curiosidade de os (re)descobrir era grande.
Pois bem, aqui estamos, mais uma vez, com o Nuno Filipe (1947-2002).
Nuno Filipe deixou-nos 4 discos (3 EP e 1 single) sempre com a colaboração nas letras da poetisa Maria Teresa Horta. Em Outubro de 1970 a revista “mundo da canção” referia-se à dupla Nuno Filipe/Maria Teresa Horta assim:
“Nuno Filipe. Dentro da via de uma canção internacionalista e urbana (nas suas coordenadas melódicas, musicais e instrumentais). Embora envolvendo temáticas enraizadas. Como os poemas de Maria Teresa Horta – uma das mais válidas vozes da poesia de hoje.”
Em 1969 foi editado o muito bem conseguido 3º EP, do qual me recordava mal, e ao que parece alvo da censura então vigente. O tema escolhido é o 2º de nome “Canção à maneira de saudade, conforme poema de El-Rei D. Diniz”. O tom “jazzístico” é dado pelo acompanhamento musical do conjunto Álamos e a própria Maria Teresa Horta participa na gravação com a leitura de pequenos versos. É dela o texto da contra-capa que se transcreve:
“O microfone à minha frente tinha ao centro um pequeno coração vermelho, saliente, brilhante… tentei concentrar nele a atenção enquanto procurava não me lembrar ainda das palavras que teria de dizer, de gravar, sobre um fundo esgarçado de «jazz»: mundo diferente e tenso numa espécie de raiva e de doçura de arrepiar os nervos; a enroscar-se na pele …
À minha frente o coração parece uma pequena jóia, mas os olhos escorregam para o papel onde as letras se destacam firmes e precisas a formarem os seus versos:
Ai minha dor minha amizade / notícias aqui desta cidade / Ai, Deus, e u é?
… Onde estão novas, onde estão dias / rasgado naquilo que nos servia / Ai, Deus, e u é?
À minha frente o coração de metal cromado… mexo nos cabelos a aliviar o peso dos auscultadores e mais à vontade, agora que já gravei, ensaio um sorriso tranquilo. Oiço os meus poemas cantados: a voz rebelde e agressiva de Nuno Filipe e sùbitamente a minha: apenas um momento numa das canções a dar um toque de mulher e de corpo. E volto para o meu lugar, atrás do vidro grosso, debruçado sobre a sala, fascinada.
…
Ai meu amor, ai meu amigo / cantai bem alto o que vos digo / Ai, Deus, e u é?”
Nuno Filipe - Canção à Maneira da Saudade
Nuno Filipe deixou-nos 4 discos (3 EP e 1 single) sempre com a colaboração nas letras da poetisa Maria Teresa Horta. Em Outubro de 1970 a revista “mundo da canção” referia-se à dupla Nuno Filipe/Maria Teresa Horta assim:
“Nuno Filipe. Dentro da via de uma canção internacionalista e urbana (nas suas coordenadas melódicas, musicais e instrumentais). Embora envolvendo temáticas enraizadas. Como os poemas de Maria Teresa Horta – uma das mais válidas vozes da poesia de hoje.”
Em 1969 foi editado o muito bem conseguido 3º EP, do qual me recordava mal, e ao que parece alvo da censura então vigente. O tema escolhido é o 2º de nome “Canção à maneira de saudade, conforme poema de El-Rei D. Diniz”. O tom “jazzístico” é dado pelo acompanhamento musical do conjunto Álamos e a própria Maria Teresa Horta participa na gravação com a leitura de pequenos versos. É dela o texto da contra-capa que se transcreve:
“O microfone à minha frente tinha ao centro um pequeno coração vermelho, saliente, brilhante… tentei concentrar nele a atenção enquanto procurava não me lembrar ainda das palavras que teria de dizer, de gravar, sobre um fundo esgarçado de «jazz»: mundo diferente e tenso numa espécie de raiva e de doçura de arrepiar os nervos; a enroscar-se na pele …
À minha frente o coração parece uma pequena jóia, mas os olhos escorregam para o papel onde as letras se destacam firmes e precisas a formarem os seus versos:
Ai minha dor minha amizade / notícias aqui desta cidade / Ai, Deus, e u é?
… Onde estão novas, onde estão dias / rasgado naquilo que nos servia / Ai, Deus, e u é?
À minha frente o coração de metal cromado… mexo nos cabelos a aliviar o peso dos auscultadores e mais à vontade, agora que já gravei, ensaio um sorriso tranquilo. Oiço os meus poemas cantados: a voz rebelde e agressiva de Nuno Filipe e sùbitamente a minha: apenas um momento numa das canções a dar um toque de mulher e de corpo. E volto para o meu lugar, atrás do vidro grosso, debruçado sobre a sala, fascinada.
…
Ai meu amor, ai meu amigo / cantai bem alto o que vos digo / Ai, Deus, e u é?”
Nuno Filipe - Canção à Maneira da Saudade
domingo, 15 de novembro de 2015
Quarteto 1111 - Balada para D. Inês
Mais uma passagem pelo Quarteto 1111. Das propostas musicais portuguesas mais interessantes que conhecemos nos idos tempos dos anos 60.
Depois de no ano de 1967 a cena musical ter sido sacudida com o aparecimento do Quarteto 1111 e abalada com a canção "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", em 1968 o Quarteto 1111, e o seu principal mentor José Cid, continuam a fazer da música pop mais criativa e inovadora de então como o demonstram os dois EP e um Single que gravaram.
O primeiro EP de 1968 contem para além da "Balada para D. Inês", as canções "Partindo-se" (do mais bonito que o José Cid compôs), "Vale da Ilusão" e Dragão".
"Balada para D. Inês", segue na mesma linha de "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", e é com ela que José Cid concorre ao Festival da canção da RTP alcançando o 3º lugar (o Festival em 1968 foi ganho por Carlos Mendes com "Verão").
Tempo de recordarmos "Balada para D. Inês" num tempo em que, claramente, eram os mais qualificados na cenário da música Pop feita em Portugal.
Quarteto 1111 - Balada para D. Inês
Depois de no ano de 1967 a cena musical ter sido sacudida com o aparecimento do Quarteto 1111 e abalada com a canção "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", em 1968 o Quarteto 1111, e o seu principal mentor José Cid, continuam a fazer da música pop mais criativa e inovadora de então como o demonstram os dois EP e um Single que gravaram.
O primeiro EP de 1968 contem para além da "Balada para D. Inês", as canções "Partindo-se" (do mais bonito que o José Cid compôs), "Vale da Ilusão" e Dragão".
"Balada para D. Inês", segue na mesma linha de "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", e é com ela que José Cid concorre ao Festival da canção da RTP alcançando o 3º lugar (o Festival em 1968 foi ganho por Carlos Mendes com "Verão").
Tempo de recordarmos "Balada para D. Inês" num tempo em que, claramente, eram os mais qualificados na cenário da música Pop feita em Portugal.
Quarteto 1111 - Balada para D. Inês
sábado, 14 de novembro de 2015
Nuno Filipe - A Feira
Ainda a música feita em Portugal no ano de 1968 para trazer à colação um cantor, autor de 4 discos no período de 1967 a 1970, que ficou praticamente desconhecido mas que é fundamental ser recuperado, refiro-me a Nuno Filipe.
Nuno Filipe (1947-2002) é um caso singular no panorama musical português da segunda metade dos anos 60. Os discos podem-se incluir na área do Pop-Rock com influências psicadélicas pouco vulgares por cá, começa-se por estranhar e acaba-se a admirar o que poderia ter sido um caso sério na cena musical não tivesse ele deixado de gravar tão cedo.
Todos os discos foram feitos a partir da poesia de Maria Teresa Horta, de quem era cunhado, o que lhes confere uma riqueza superior. "Cunhado da escritora Maria Teresa Horta, Nuno Filipe soube tirar dessa relação familiar o melhor partido possível." Em "Canta, Amigo, Canta" de João Carlos Calixto.
Na certeza de voltarmos a este, infelizmente esquecido, cantor ficamos com a canção "A Feira" (letra de Maria Teresa Horta e música de Nuno Filipe) do 2º EP de Nuno Filipe, editado em 1968.
Nuno Filipe - A Feira
Nuno Filipe (1947-2002) é um caso singular no panorama musical português da segunda metade dos anos 60. Os discos podem-se incluir na área do Pop-Rock com influências psicadélicas pouco vulgares por cá, começa-se por estranhar e acaba-se a admirar o que poderia ter sido um caso sério na cena musical não tivesse ele deixado de gravar tão cedo.
Todos os discos foram feitos a partir da poesia de Maria Teresa Horta, de quem era cunhado, o que lhes confere uma riqueza superior. "Cunhado da escritora Maria Teresa Horta, Nuno Filipe soube tirar dessa relação familiar o melhor partido possível." Em "Canta, Amigo, Canta" de João Carlos Calixto.
Na certeza de voltarmos a este, infelizmente esquecido, cantor ficamos com a canção "A Feira" (letra de Maria Teresa Horta e música de Nuno Filipe) do 2º EP de Nuno Filipe, editado em 1968.
Nuno Filipe - A Feira
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Teresa Paula Brito - Ven Oir el Mar
Em maré de recordação da música feita em Portugal no ano de 1968 mais uma oportunidade para lembrar Teresa Paula Brito.
Teresa Paula Brito (1944-2003) foi uma cantora que abordou vários estilos musicais, a canção ligeira, o jazz e a música popular, sendo possuidora de uma bela e singular voz.
Depois das passagens já aqui feitas de "Chevrolet" no duo "The Strollers" em 1967 e "Verdes Anos" do EP "Canções para Fim de Noite" em 1968, recuperamos agora o 2º EP de 1968. Trata-se de um EP eclético de 4 faixas a saber:
- Those Were lhe Das
- Your Heart Is Free Just Live the Wind
- Ven Oir El Mar
- Para Não Dizer Que Não Falei de Flores
A versão de "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" do brasileiro Geraldo Vandré fica para outra ocasião, por agora oportunidade para ouvir "Ven Oir El Mar" de Eugénio Pepe e Francisco Nicholson acompanhamento do Conjunto de Shegundo Galarza.
Teresa Paula Brito - Ven Oir el Mar
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Daniel - Hino a Joan Baez
Antecipando o surto significativo de novas propostas musicais da nova canção portuguesa ocorrida no final da década de 60, começamos por recordar mais um músico português que, manifestando influências de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, teve a primeira gravação no ano de 1968.
Daniel, de nome, não teve a repercussão nem a importância musical que outros do mesmo género, alguns já aqui lembrados, tiveram num período tão rico da história da música popular. Na contracapa do primeiro EP editado em 1968, Daniel era apresentado como "criador do movimento da nova canção nacional, há qual já alguns jovens aderiram..." e musicalmente encontrávamos para além das já citadas influências baladeira e trovadoresca de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, alinhamento na música Folk oriunda dos Estados Unidos. A capa do EP e o tema título "Hino a Joan Baez" assim o mostrava.
As canções que compõem este EP são: "Hino a Joan Baez", "Vou Passar a Nulidade", "O Sol É Doido" e "Canção da Gente do Mar", todas de autoria de Daniel. A escolha vai para "Hino a Joan Baez".
Daniel - Hino a Joan Baez
Daniel, de nome, não teve a repercussão nem a importância musical que outros do mesmo género, alguns já aqui lembrados, tiveram num período tão rico da história da música popular. Na contracapa do primeiro EP editado em 1968, Daniel era apresentado como "criador do movimento da nova canção nacional, há qual já alguns jovens aderiram..." e musicalmente encontrávamos para além das já citadas influências baladeira e trovadoresca de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, alinhamento na música Folk oriunda dos Estados Unidos. A capa do EP e o tema título "Hino a Joan Baez" assim o mostrava.
As canções que compõem este EP são: "Hino a Joan Baez", "Vou Passar a Nulidade", "O Sol É Doido" e "Canção da Gente do Mar", todas de autoria de Daniel. A escolha vai para "Hino a Joan Baez".
Daniel - Hino a Joan Baez
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Manuel Freire - Livre
A novidade do ano de 1968 na música popular portuguesa chamava-se Manuel Freire.
Manuel Freire vinha juntar-se aos cantores de protesto já com percurso reconhecido, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília.
Manuel Freire inicia-se nas gravações, no ano de 1968, com a edição de 2 EP: "Manuel Freire Canta Manuel Freire" e "Trovas Trovas Trovas".
Este último seria apreendido pela PIDE pela canção, manifestamente antiguerra colonial, de sua autoria "O Sangue não dá Flôr" ("Poisa a espingarda, irmão/que o sangue não dá flor").
O primeiro EP é composto por quatro emblemáticas canções: "Dedicatória", "Livre", "Eles" e "Pedro o Soldado". Com letra de Carlos de Oliveira e música do próprio Manuel Freire "Livre" vai-se tornar mais um hino, então muito popular, na resistência ao fascismo.
"Não há machado que corte
a raíz ao pensamento
Não há morte para o vento
não há morte
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão
Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre."
Manuel Freire - Livre
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Adriano Correia de Oliveira - Canção Terceira
Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) foi uma das principais vozes da resistência ao fascismo. Foi um dos maiores intérpretes do fado de Coimbra, tendo sido um dos que mais cantou a poesia de Manuel Alegre. Fado de Coimbra que Adriano Correia de Oliveira vai ser, através das gravações efetuadas ao longo da década de 60, um dos seus principais transformadores.
"Desencantado com a tradição da serenata e da utilização da canção de Coimbra como expressão da bonomia da vida estudantil, sentiu a necessidade de interpretar textos relacionados com os problemas quer afetavam a sociedade portuguesa.", pode-se ler em "Enciclopédia da Música Em Portugal no Século XX".
É em Coimbra nos finais dos anos 50 que entra em contacto com o movimento estudantil antifascista aderindo aos ideais da democracia e do socialismo refletidas na aproximação ao PCP. Ideais esses que se vão refletir nas suas músicas até ao final da sua vida.
Dotado de um timbre de voz ímpar conviveu com músicos como José Afonso, Rui Pato, António Portugal e José Niza.
A fase mais produtiva é na de 1967 a 1971 onde nos deixou temas inesquecíveis como "O Senhor Morgado", "Cantar de Emigração", "Pedro Soldado", "E Alegre se Fez Triste" e tantas outras, algumas das quais hinos de resistência ao regime.
É de 1968 (algumas fontes indicam 1967) "Canção Terceira" com letra de Manuel Alegre, música do Luís Cília. "Canção Terceira" é no original "Canção Final, Canção de Sempre" gravada por Luís Cília em França em 1964 no primeiro álbum "Portugal-Angola: Chants de Lutte". É uma bela canção pouco conhecida, quer no original, quer nesta versão de Adriano Correia de Oliveira que agora recordamos.
Adriano Correia de Oliveira - Canção Terceira
"Desencantado com a tradição da serenata e da utilização da canção de Coimbra como expressão da bonomia da vida estudantil, sentiu a necessidade de interpretar textos relacionados com os problemas quer afetavam a sociedade portuguesa.", pode-se ler em "Enciclopédia da Música Em Portugal no Século XX".
É em Coimbra nos finais dos anos 50 que entra em contacto com o movimento estudantil antifascista aderindo aos ideais da democracia e do socialismo refletidas na aproximação ao PCP. Ideais esses que se vão refletir nas suas músicas até ao final da sua vida.
Dotado de um timbre de voz ímpar conviveu com músicos como José Afonso, Rui Pato, António Portugal e José Niza.
A fase mais produtiva é na de 1967 a 1971 onde nos deixou temas inesquecíveis como "O Senhor Morgado", "Cantar de Emigração", "Pedro Soldado", "E Alegre se Fez Triste" e tantas outras, algumas das quais hinos de resistência ao regime.
É de 1968 (algumas fontes indicam 1967) "Canção Terceira" com letra de Manuel Alegre, música do Luís Cília. "Canção Terceira" é no original "Canção Final, Canção de Sempre" gravada por Luís Cília em França em 1964 no primeiro álbum "Portugal-Angola: Chants de Lutte". É uma bela canção pouco conhecida, quer no original, quer nesta versão de Adriano Correia de Oliveira que agora recordamos.
Adriano Correia de Oliveira - Canção Terceira
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
José Afonso - Vejam Bem
Em Portugal, no ano de 1968 a produção discográfica era relativamente pobre e o que de melhor se fazia era de difícil acesso dada a pouca divulgação que se verificava no contexto político da época.
O destaque vai para as novas sonoridades que se desenhavam na música popular portuguesa e que vinham de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Nuno Filipe, Teresa Paula Brito, Quarteto 1111 e pouco mais.
Em 1968 José Afonso edita o 2º LP "Cantares do Andarilho", um álbum entre as baladas e a recuperação de temas populares, um disco com novas opções musicais que José Afonso iria consolidar na discografia posterior.
Na capa interior do LP um texto de Urbano Tavares Rodrigues que vale apena recordar:
"A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa coletiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chamo do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos Pinhais, da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão...
José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova."
"Vejam Bem" foi mais uma das canções de José Afonso a tornar-se um hino na resistência ao fascismo.
José Afonso - Vejam Bem
O destaque vai para as novas sonoridades que se desenhavam na música popular portuguesa e que vinham de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Nuno Filipe, Teresa Paula Brito, Quarteto 1111 e pouco mais.
Em 1968 José Afonso edita o 2º LP "Cantares do Andarilho", um álbum entre as baladas e a recuperação de temas populares, um disco com novas opções musicais que José Afonso iria consolidar na discografia posterior.
Na capa interior do LP um texto de Urbano Tavares Rodrigues que vale apena recordar:
"A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa coletiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chamo do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos Pinhais, da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão...
José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova."
"Vejam Bem" foi mais uma das canções de José Afonso a tornar-se um hino na resistência ao fascismo.
José Afonso - Vejam Bem
sábado, 12 de setembro de 2015
Filarmónica Fraude - Epopeia (1ª profecia)
O Mundo da Música Pop
Em continuação ao prefácio do livro “O Mundo da Música Pop” de Rolf-Ulrich Kaiser, com data de edição de 1973, afirma Joaquim Fernandes a certa altura:
“Não vai longe o tempo da Filarmónica Fraude. Entretanto, o conjunto dissolveu-se e deixou fechada uma possível saída para a música popular portuguesa. Foi uma «epopeia» que os editores não souberam incentivar preferindo uma outra «epopeia» económica em detrimento das propostas incómodas da Filarmónica.”
Clarividência do que agora parece ser consensual face à importância da obra deixada pela Filarmónica Fraude durante a sua curta existência. No ano de 1969 para além de 2 EP a Filarmónica gravaria ainda o disco de longa duração “Epopeia” cujo tema central era os descobrimentos e as suas adversidades.
“Enquanto boa parte da produção nacional procurava imitar a pop importada o mais fielmente possível, a Filarmónica procurava nas nossas raízes as marcas de distinção que reconhecia nos trabalhos que ia escutando de gente como Bob Dylan, os Byrds, ou até os Jethro Tull.” em “E Tudo acabou em 69” livro editado em 2013 com a história da Filarmónica Fraude contada pelos próprios.
No que diz respeito aos textos, “A Filarmónica Fraude apostava numa paródia de inteligente frontalidade na qual uma série de comentários, sátiras e críticas ao Portugal marcelista corriam na forma de evocações da epopeia dos descobrimentos e do Portugal de mil e seiscentos.” igualmente em “E Tudo acabou em 69”. A única coisa que então foi censurada, não foram as letras, não senhor, mas a assinatura da capa (capa aberta, julgo que inédita em LP portugueses) de Lídia Martinez que assinou “Lídia 69”, o ano teve que ser cortado.
O LP abria com o tema “Epopeia” e é com ele que ficamos nesta 3ª passagem pela Filarmónica Fraude.
Filarmónica Fraude - Epopeia (1ª profecia)
PS: Felizmente o fim da Filarmónica Fraude não deixou completamente “fechada uma possível saída para a música popular portuguesa”. Os anos 70 iriam ter A Banda do Casaco.
Em continuação ao prefácio do livro “O Mundo da Música Pop” de Rolf-Ulrich Kaiser, com data de edição de 1973, afirma Joaquim Fernandes a certa altura:
“Não vai longe o tempo da Filarmónica Fraude. Entretanto, o conjunto dissolveu-se e deixou fechada uma possível saída para a música popular portuguesa. Foi uma «epopeia» que os editores não souberam incentivar preferindo uma outra «epopeia» económica em detrimento das propostas incómodas da Filarmónica.”
Clarividência do que agora parece ser consensual face à importância da obra deixada pela Filarmónica Fraude durante a sua curta existência. No ano de 1969 para além de 2 EP a Filarmónica gravaria ainda o disco de longa duração “Epopeia” cujo tema central era os descobrimentos e as suas adversidades.
“Enquanto boa parte da produção nacional procurava imitar a pop importada o mais fielmente possível, a Filarmónica procurava nas nossas raízes as marcas de distinção que reconhecia nos trabalhos que ia escutando de gente como Bob Dylan, os Byrds, ou até os Jethro Tull.” em “E Tudo acabou em 69” livro editado em 2013 com a história da Filarmónica Fraude contada pelos próprios.
No que diz respeito aos textos, “A Filarmónica Fraude apostava numa paródia de inteligente frontalidade na qual uma série de comentários, sátiras e críticas ao Portugal marcelista corriam na forma de evocações da epopeia dos descobrimentos e do Portugal de mil e seiscentos.” igualmente em “E Tudo acabou em 69”. A única coisa que então foi censurada, não foram as letras, não senhor, mas a assinatura da capa (capa aberta, julgo que inédita em LP portugueses) de Lídia Martinez que assinou “Lídia 69”, o ano teve que ser cortado.
O LP abria com o tema “Epopeia” e é com ele que ficamos nesta 3ª passagem pela Filarmónica Fraude.
Filarmónica Fraude - Epopeia (1ª profecia)
PS: Felizmente o fim da Filarmónica Fraude não deixou completamente “fechada uma possível saída para a música popular portuguesa”. Os anos 70 iriam ter A Banda do Casaco.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Sérgio Godinho - Farto de Voar
O último protagonista da renovação musical operada no Outono de 1971 é Sérgio Godinho que se estreia com o EP “Romance de um dia na estrada”, 4 canções a antever o 1º álbum “Sobreviventes”. A colaboração de Sérgio Godinho e José Mário Branco foi mútua tendo cada um participado no álbum do outro. “O charlatão” é a uma evidência dessa colaboração (aparece quer em “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” de José Mário Branco, quer em “Os Sobreviventes” de Sérgio Godinho) e pode ser agora recordado.
Continua incrivelmente actual.
“… sendo «Romance de um dia na estrada», sem sombra de dúvida um dos acontecimentos mais importantes do ano, é-o, certamente, em grande parte, através da voz espontânea, fresca e intencional de Sérgio Godinho.” Escrevia Tito Lívio no “mundo da canção” em Janeiro de 1972. Sérgio Godinho que passados mais de 40 anos nos continua a encantar com a sua prolifera discografia e presença regular em palco, continua entre os melhores e é referência para sucessivas gerações.
Quando o EP "Romance de um dia na estrada" saiu o meu saudoso pai adquiriu-o via o cantor Manuel Freire, seu colega de trabalho, que então ajudava na divulgação dos discos acabados de sair de Sérgio Godinho e José Mário Branco. Para ele, que tanta música ouvimos juntos, aqui fica do álbum "Sobreviventes", "Farto de voar".
“Farto de voar, Pouso as palavras no chão…”
Sérgio Godinho - Farto de Voar
Continua incrivelmente actual.
“… sendo «Romance de um dia na estrada», sem sombra de dúvida um dos acontecimentos mais importantes do ano, é-o, certamente, em grande parte, através da voz espontânea, fresca e intencional de Sérgio Godinho.” Escrevia Tito Lívio no “mundo da canção” em Janeiro de 1972. Sérgio Godinho que passados mais de 40 anos nos continua a encantar com a sua prolifera discografia e presença regular em palco, continua entre os melhores e é referência para sucessivas gerações.
Quando o EP "Romance de um dia na estrada" saiu o meu saudoso pai adquiriu-o via o cantor Manuel Freire, seu colega de trabalho, que então ajudava na divulgação dos discos acabados de sair de Sérgio Godinho e José Mário Branco. Para ele, que tanta música ouvimos juntos, aqui fica do álbum "Sobreviventes", "Farto de voar".
“Farto de voar, Pouso as palavras no chão…”
Sérgio Godinho - Farto de Voar
terça-feira, 28 de abril de 2015
Adriano Correia de Oliveira - História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
O terceiro grande álbum de música portuguesa de 1971 foi “Gente de Aqui e de Agora” de Adriano Correia de Oliveira.
Foi o último antes do 25 de Abril pois Adriano Correia de Oliveira vai recusar enviar os textos à Censura. Com uma discografia já assinalável, gravações desde o início dos anos 60, Adriano Correia de Oliveira tem aqui o seu melhor álbum. As músicas a cargo do José Niza, os textos diversificados, de Manuel Alegre a António Aleixo, os arranjos variados, de José Calvário a Thilo Krassman, formam no todo um álbum com qualidades estético-musicais superiores às gravações anteriores. Eduardo M. Raposo em “Canto de Intervenção 1960-1974” escreve:
“É ainda Adriano que, em entrevista ao «Mundo da Canção», nos diz que agora já fora possível melhorar os meios postos à disposição, meios materiais que anteriormente eram mais deficientes pois utilizava-se só a viola ou um pequeno conjunto.”
E mais adiante pelo próprio Adriano:
“Em dez arranjos não há um único igual. São sempre diferentes segundo aquilo que nos pareceu adequado ao espírito de cada canção (…) ao contrário do que normalmente acontecia.”
Face à dificuldade de escolha, acabo por selecionar uma das que então mais ouvia, “História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro”.
Adriano Correia de Oliveira - História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
Foi o último antes do 25 de Abril pois Adriano Correia de Oliveira vai recusar enviar os textos à Censura. Com uma discografia já assinalável, gravações desde o início dos anos 60, Adriano Correia de Oliveira tem aqui o seu melhor álbum. As músicas a cargo do José Niza, os textos diversificados, de Manuel Alegre a António Aleixo, os arranjos variados, de José Calvário a Thilo Krassman, formam no todo um álbum com qualidades estético-musicais superiores às gravações anteriores. Eduardo M. Raposo em “Canto de Intervenção 1960-1974” escreve:
“É ainda Adriano que, em entrevista ao «Mundo da Canção», nos diz que agora já fora possível melhorar os meios postos à disposição, meios materiais que anteriormente eram mais deficientes pois utilizava-se só a viola ou um pequeno conjunto.”
E mais adiante pelo próprio Adriano:
“Em dez arranjos não há um único igual. São sempre diferentes segundo aquilo que nos pareceu adequado ao espírito de cada canção (…) ao contrário do que normalmente acontecia.”
Face à dificuldade de escolha, acabo por selecionar uma das que então mais ouvia, “História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro”.
Adriano Correia de Oliveira - História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
segunda-feira, 27 de abril de 2015
José Mário Branco - Casa Comigo Marta
1971, o ano de todas as mudanças na Música Popular Portuguesa.
Para a ouvir era necessário sintonizar a Rádio Renascença (!!) e ouvir às 19h30m o programa "Página Um" de José Manuel Nunes. E a 26 de Novembro (eu ouvi!), foi há 44 anos, o programa realizou-se em directo do cinema Roma, motivo: a passagem integral do álbum de estreia de José Mário Branco, "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e ainda o EP de Sérgio Godinho "Romance de um dia na estrada".
Não, eles não estavam presentes, estavam exilados em França, assim, a assistência e os ouvintes da rádio o que testemunharam foi mesmo a audição dos discos e ainda entrevistas com os autores realizadas pelo Adelino Gomes.
A partir daqui tudo foi diferente na música portuguesa, José Duarte, a vaticiná-lo, escrevia na capa do LP de José Mário Branco:
«... Assim, esta obra combate uma tradição onde a palavra é o som mais inteligível. Assim se encerra a fase confusa da nova música portuguesa. Assim se inaugura uma época nova onde também cantar bem e compôr melhor serão condições a exigir à canção útil; da afirmação da palavra à desafinação das cordas, à percussão das peles e teclas, à imaginação nos arranjos, à criação melódica, à vocalização justa: aqui o circo foi desmantelado com todas as ferramentas do som»
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", um disco absolutamente ímpar na história da melhor Música Popular Portuguesa. Agora recordação da canção "Casa comigo Marta", com letra do Sérgio Godinho.
José Mário Branco - Casa Comigo Marta
Para a ouvir era necessário sintonizar a Rádio Renascença (!!) e ouvir às 19h30m o programa "Página Um" de José Manuel Nunes. E a 26 de Novembro (eu ouvi!), foi há 44 anos, o programa realizou-se em directo do cinema Roma, motivo: a passagem integral do álbum de estreia de José Mário Branco, "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e ainda o EP de Sérgio Godinho "Romance de um dia na estrada".
Não, eles não estavam presentes, estavam exilados em França, assim, a assistência e os ouvintes da rádio o que testemunharam foi mesmo a audição dos discos e ainda entrevistas com os autores realizadas pelo Adelino Gomes.
A partir daqui tudo foi diferente na música portuguesa, José Duarte, a vaticiná-lo, escrevia na capa do LP de José Mário Branco:
«... Assim, esta obra combate uma tradição onde a palavra é o som mais inteligível. Assim se encerra a fase confusa da nova música portuguesa. Assim se inaugura uma época nova onde também cantar bem e compôr melhor serão condições a exigir à canção útil; da afirmação da palavra à desafinação das cordas, à percussão das peles e teclas, à imaginação nos arranjos, à criação melódica, à vocalização justa: aqui o circo foi desmantelado com todas as ferramentas do som»
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", um disco absolutamente ímpar na história da melhor Música Popular Portuguesa. Agora recordação da canção "Casa comigo Marta", com letra do Sérgio Godinho.
José Mário Branco - Casa Comigo Marta
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