Alguns dos nomes oriundos do Pop-Rock nacional dos anos 60 abandonaram o
género e na segunda metade dos anos 70 eram cantores prestigiados de música
ligeira de diversas matizes com mais ou menor ligação à situação
revolucionária que então se vivia. Estou a lembrar-me por exemplo de José Cid,
Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho...
Iam longe os dias de José Cid do bom, velho Quarteto 1111 ou dos primeiros
trabalhos a solo (1971). Uma verdadeira miscelânea musical caracterizou o José Cid da década de 70, desde o Folk-Pop inicial, ao Rock Progressivo, à música
ligeira mais comercial que se possa imaginar (ex: "A Anita Não É Bonita").
https://www.discogs.com/
Em 1976 publica um Single com as canções "Ontem, Hoje e Amanhã" e "Mosca
Super-Star" que foi um enorme sucesso com a primeira canção que tinha sido
vencedora do prémio "Outstanding Composition" no Festival Mundial de Tóquio em
1975.
Na faceta menos interessante de José Cid ei-lo com "Ontem, Hoje e Amanhã".
Também fora da onda revolucionária que caracterizou boa parte dos trabalhos
publicados no ano de 1975 em Portugal, encontra-se o álbum do Quarteto 1111
(ou do José Cid) que deu pelo nome de "Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos
Pessoas Vivas", na capa por cima do Quarteto 1111 aparecia escrito
"Obra-Ensaio de José Cid".
O Quarteto 1111 ou talvez melhor José Cid abandona o Pop-Rock criativo de
fusão com o Folk nacional e abraça o Rock Progressivo tão em voga naqueles
anos e do qual vai ser, por cá, um dos principais protagonistas e que iria
culminar em 1978 com o LP "10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte".
Pessoalmente preferia a primeira fase do Quarteto 1111 e de José Cid onde
tinha uma maior originalidade, agora parecia-me copiar a sonoridade dos
Genesis e cavalgar assim uma onda de bastante sucesso.
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Porque o vinil assim o obrigava, o disco é dividido em duas faixas donde eu
retiro parte do lado A.
Para os apreciadores e nostálgicos deste período eis então o início de
"Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas".
Quarteto 1111 - Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas
E termino hoje a passagem pelo nº 7 do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" cuja
publicação ocorreu a 1 de Maio de 1971. Termino com o artigo que ocupava a
contra-capa, um texto de António Pinho sobre o Quarteto 1111 e José Cid.
Revisão sumária do percurso de José Cid dos tempos do Orfeão Académico de
Coimbra e do Conjunto Mistério ao primeiro LP a solo editado em 1971. Ou seja,
para meu gosto o melhor período de José Cid com um contributo indiscutível na
renovação da música popular portuguesa.
Da revolucionária "A Lenda d'el Rei D. Sebastião",
"Parecia ser possível fazer aquilo que há muito se julgara impossível: BOA
MÚSICA PORTUGUESA", à "influência de Jorge Ben" em "Zé Ninguém".
Ouça-se "Zé Ninguém" que não fez parte do álbum mas sim do EP "Lisboa Perto e
Longe" também daquele ano. Uma boa colheita musical este ano de 1971!
O artigo mais interessante deste nº 13 da revista "mundo da canção", que viu a
luz do dia em Dezembro de 1970, dando assim início ao segundo ano de vida da
revista, foi, sem dúvida, o assinado por José Cid, nem mais esse mesmo que
naquela altura militava no Quarteto 1111 e se aventurava por novas músicas,
intitulava-se "Pop em Portugal" e revelava a exigência crítica que então se
fazia sentir em boa parte das publicações que surgiam de divulgação musical.
Um artigo onde se lamenta o fim da Filarmónica Fraude, onde se aplaude o 1º LP
de Fausto. Onde se defende a divulgação da boa música anglo-americana em
detrimento à falta de qualidade da música por cá feita que justifique a
passagem de 75% de música nacional. A denúncia da eleição dos reis da
rádio cujas votações colocavam uma tal de Maria Fiúza, os Vodkas e o Conjunto Zoo muito à frente do Quarteto 1111, da Filarmónica Fraude e José Afonso. A
relevância de artistas como Led Zeppelin, Blood, Sweat and Tears, Crosby, Stills, Nash and Young face à menor qualidade que The Beatles vinham
denunciando em alguns temas nos últimos anos, a constatação de que os Cream
eram "...o melhor trio até hoje conseguido na Pop Music". E finalmente
a defesa dos mal comportados Rolling Stones em comparação com os inofensivos
The Beatles.
Infelizmente que José Cid, que tanto contribuiu para a criação de um Pop-Rock
verdadeiramente nacional, tenha abraçado outros estilos musicais próximos da
música ligeira de gosto mais comercial retirando valor à sua obra, ou seja
desenvolvendo-se por caminhos que criticava neste artigo.
É de 1970 o álbum único do Quarteto 1111, marco importante do Pop-Rock
português anterior ao 25 de Abril de 1974. A ele volto novamente, desta vez
com "Lenda de Nambuangongo".
O motivo de hoje é um pequeno texto assinado pelo crítico Tito Lívio
intitulado "Algumas Considerações Sobre A «Nova» Canção Portuguesa" que vinha
publicado no jornal de divulgação musical "DISCO MÚSICA & MODA" nº 6
referente à segunda quinzena de Abril de 1971. Era um resumo do ponto de
situação da música popular portuguesa naquele momento. Muita coisa estava a
acontecer, já não era só a velha e estafada canção piegas que se ouvia na
televisão e na rádio na década de 60 com António Calvário à cabeça, era também
uma série de novos autores com outras preocupações nas letras e nas harmonias
que se desenvolvia e que conquistava sobretudo uma população mais nova
Novas editoras, novos compositores, novos cantores e novos poetas então surgiam dizendo Tito Lívio que
"É necessário, no entanto, não limitar ou restringir este «movimento» à
balada de protesto género mais apreciado e divulgado entre certos
sectores..."
Um nome que se enquadrava bem neste processo de renovação da canção portuguesa
dita popular era a de José Cid que se apresentava, primeiro no Quarteto 1111
depois a solo, na linha da frente da música Pop. Provas dadas no Quarteto 1111, em 1971 inicia a solo uma prometedora carreira, tendo neste ano editado
um álbum e dois EP a considerar no melhor que a
"«Nova» Canção Portuguesa" então nos trouxe.
Estava por pouco a edição do seu 1º LP que facilmente se colocaria num
Pop de vanguarda, transversal a vários géneros, a influência do Pop-Rock
internacional está presente bem como as mais genuínas raízes populares
portuguesas. Entre as 12 canções que compõem este LP encontra-se "Dom Fulano",
música de José Cid e letra de Natália Correia segundo tema do cancioneiro de
D. Dinis. Estava em boas mãos a renovação da nossa música popular.
É sabido que os primeiros anos da década de 70 foram para José Cid de
grande produtividade. O que não significa que tudo o que fez correspondesse à
qualidade que vínhamos habituados do Quarteto 1111. Assim é possível encontrar
na discografia daqueles anos um pouco de tudo, deste o excelente primeiro LP a
solo de 1971 ao comercialismo menos interessante das gravações nos Green
Windows. Pelo meio, para além da colaboração intensa nas gravações de outros
artistas (ex: José Cheta, Tonicha), gravações em nome próprio de decrescente
qualidade.
Em 1973 Portugal não estava imune ao Rock mais pesado que provinha do Reino
Unido e dos Estados Unidos da América e as suas influências não se fizeram
esperar nos grupos de Rock portugueses mas também em José Cid. É assim que em
1973 edita o Single com as canções "Cantiga Portuguesa" no lado A e "Doce e
Fácil Reino do Blá, Blá, Blá". É nesta última que podemos ouvir José Cid a
aderir aos sons mais roqueiros e de menor interesse face às suas gravações
anteriores.
Confesso que não gostei desta incursão de José Cid pelo Hard-Rock talvez para
agradar a outros públicos, no mesmo ano é publicado um outro Single com "Olá
Vampiro Bom" e "Dragão", canções que vinham do 1º LP de 1971. Tomara que se
tivesse mantido neste registo.
Portanto mais um Regresso ao Passado para o José Cid. Lembro que tenho estado
a recordar o ano de 1972, ano de coexistência de José Cid a solo e do Quarteto 1111. Infelizmente, para meu gosto, os dois em declínio face ao que já tinham
produzido.
Pena é que tivesse optado por um leque tão diversificado de estilos, desde a
Rock Progressivo à música ligeira de cariz mais popular.
No ano de 1972, de José Cid é publicado um EP de nome "Camarada", com 4
composições, sendo a faixa título a menos interessante e a denunciar um gosto
fácil posteriormente por ele desenvolvido em canções de largo sucesso. "Corpo
Abolido" é uma das outras canções com poema de Natália Correia e música de
José Cid. A ouvir.
José Cid teima em não deixar definitivamente a música, continuando regularmente a animar festas e a encher Coliseus. José Cid representa, actualmente, o que há de mais popularucho na música popular portuguesa, está ao nível de um Tony Carreira ou outros do mesmo género.
Na realidade, o período mais relevante que teve foi de 1967 a 1970 com o Quarteto 1111 e a bela balada “A lenda de El-Rei D. Sebastião” ou o excelente “João Nada”. Aí sim teve um importante papel no surgimento na nova música portuguesa então em desenvolvimento. Com o fim do Quarteto 1111 a sua carreira pautou-se progressivamente pela mediocridade, sendo grande o rol de canções que o atestam: “Uma rosa que te dei”, “Ontem, hoje e amanhã”, “Na cabana junto à praia”, “Como o macaco gosta da banana”, etc., etc., etc.
E o curioso é ele julgar-se o dinossauro do Rock português comparando-se ao francês Johnny Halliday, ele que afirmava em 2007 na Semana Académica do Algarve: “Não me mandem cuecas para o palco, eu não sou o Tony Carreira”. Eis algumas frases dele que atestam o seu nível actual:
“Se Elton John tivesse nascido na Chamusca, não teria tido tanto êxito como eu.”“Se o Rui Veloso é o pai do Rock português, eu sou a mãe.”“Gostava que não reparassem só no mau (…). De qualquer forma, o meu pior é muito melhor do que o melhor do Tony Carreira.” (frases retiradas da Wikipédia).
Está tudo dito.
Mas, sublinho novamente, José Cid não navegou somente por estas águas estagnadas. Quer ao nível da composição, não esquecer que foi a única excepção feita pelo excelente programa de rádio ”Em Órbita” nos anos 60, ao passar no crivo da exigente escolha musical, um tema de música portuguesa, precisamente “A lenda de El-Rei D. Sebastião”, quer na posição crítica que tinha em relação à situação musical portuguesa e anglo-saxónica dominante nessa época. Veja-se o que ele próprio escrevia no nº 13 da revista “mundo da canção” de Dezembro de 1970 intitulado “Pop em Portugal”: “Tive sinceramente pena ao saber da dissolução da Filarmónica Fraude. (…) A colaboração que deram ao último LP de Fausto – O MAIOR – entre os “mais” da jovem música portuguesa é prova de sobejo do espírito criador dos seus elementos.”
Relativamente ao projecto que então previa a passagem de 75% de música portuguesa na rádio dizia: “Acho preferível para a formação musical do povo português ouvir Simon & Garfunkel, Donovan, Chicago, James Taylor do que cantores de ópera falhados «made Parque Mayer» que infestam as frequências de alguns programas de rádio, dos emissores mais castiços”
Quanto ao fim dos The Beatles: “Os Beatles também há algum tempo brincavam com o mau gosto como por exemplo em «Ballad to John and Yoko e Obladi oblada» embora o seu último trabalho LP «Let it be» seja das suas melhores obras. No entanto os tempos de Yesterday, Here, There and Everywhere, e Sargent Pepper´s iam longe e alguns conjuntos como Led Zeppelin, Cream, Blood Sweat and Tears, Chicago, Creedence Clearwater Revival e Crosby, Stills, Nash & Young, menos artificiais, e actuando ao vivo vinham a ganhar terreno na consciência dos que se interessam por «estas coisas» da Pop Music.”
E ainda: “Os Cream constituíram o melhor trio até hoje conseguido na Pop Music.”
Não podia estar mais de acordo! Mas, qualquer semelhança com o José Cid actual..., cada um que tire as suas conclusões.
Em 1971 devia ter simplesmente mudado de vida. E é de 1971 que recupero, do EP “História Verdadeira de Natal”, ainda um tema, é “Todas las Aves do Mundo”.
É um José Cid de barba e chapéu (qual Woodstock!) que em Agosto de 1971 se apresenta com o Quarteto 1111 no Festival de Vilar de Mouros. Naquele ano o Quarteto 1111 começa a privilegiar cantar em inglês e ao vivo muitos temas eram não originais, de Santana a Led Zeppelin (de acordo com o jornal "DISCO MÚSICA & MODA" – Nº 13 de 1971).
Procurava o Quarteto a sua internacionalização, tentativa essa continuada em 1972 com a formação dos Green Windows.
Paralelamente José Cid inicia carreira a solo. É um José Cid cheio de oscilações: carreira a solo? Internacionalização do Quarteto 1111? Cantar em português ou inglês? E ainda a formação próxima dos populares e ligeiros Green Windows. Não mais atingiria os níveis de 1967-1970. José Cid termina aqui.
Depois do primeiro álbum a solo grava 2 EP, respectivamente “Lisboa Perto e Longe” e “História Verdadeira de Natal”. Se os destaques dos EP iam directos para os temas título com poemas respectivamente de Manuel Alegre e Natália Correia é, no entanto, nos 2 temas (1 em cada EP) com textos de origem medieval que José Cid consegue manter alguma da chama dos anos anteriores.
A minha preferência vai para “Dona Feia, Velha e Louca” do EP “Lisboa Perto e Longe” no original “Ai Dona fea, fostes-vos queixar” cuja autoria é de um trovador português do séc. XIII de nome João Garcia de Guilhade. Ora ouçam:
E vamos lá continuar com mais alguns temas da música popular portuguesa dos primeiros anos da década de 70
E o Quarteto 1111 já deu o que tinha a dar, mas a figura de José Cid vai continuar presente. É verdade!
E por mais algum tempo ainda vai manter alguma da chama que tinha animado o melhor Pop feito em Portugal.
E em 1971 vamos ter o José Cid pela primeira vez a solo com a edição de 1 LP e 2 EP.
E aparecem os primeiros “clichés”, não só vocais mas também na composição, a querer imitar descaradamente Elton John (por exemplo “Não Convém”). "Se Elton John tivesse nascido na Chamusca, não teria tido tanto êxito como eu." dizia José Cid in Pública, 2003 – fonte a Wikipédia.
E as fragilidades eram evidentes, mas mesmo assim ainda nos fazia sonhar que se mantivesses nos melhores caminhos, por exemplo, a escolha de hoje, “Olá Vampiro Bom”, encontra-se, ainda, entre o melhor que conheço de José Cid/Quarteto 1111.
E “O Dragão” também!
E “Dom Fulano” é insuportável!
E o resto do LP ouve-se.
E o José Cid toca todos os instrumentos.
E José Cid é dos músicos portugueses que mais tenho recordado!
E, vamos lá ouvir “Olá Vampiro Bom”.
mundo da canção nº 5 de Abril de 1970
Composto quase na totalidade pelo José Cid, a figura central do grupo, o primeiro trabalho de longa duração gravado em nome do Quarteto 1111 foi editado a 13 de Fevereiro de 1970. O arrojado projecto do Quarteto 1111 de gravar um álbum, onde os temas centrais eram a guerra colonial, o racismo e a emigração, levou a que pouco depois de ser editado o mesmo fosse retirado do mercado. O arrojo valer-lhe-ia também ser um dos melhores trabalhos de Pop-Rock jamais feitos em Portugal. Inovador no estilo musical, marcado pelas melhores influências da música anglo-saxónica da época, são 11 canções que, se bem que marcadas no tempo, ainda hoje se ouvem com todo o agrado. Um disco histórico, portanto.
A revista "mundo da canção" continuava no seu nº 5 a divulgar algumas letras de canções deste LP, depois de "João Nada" e "Pigmentação" era agora a vez de "Maria Negra", divulgação essa que continuaria noutros nºs da revista.
"Maria Negra" uma bela canção de um disco que me traz belas memórias dos tempos em que "Quarteto 1111" passava na nossa rádio, nomeadamente no programa "Página Um" que então ouvia diariamente.
Depois da edição do álbum homónimo e do Single "Todo o Mundo e Ninguém", o ano não termina sem um novo Single de nome "Back to the Country".
Pela primeira vez o Quarteto canta em inglês, começa a tentativa de internacionalização ou, como há quem defenda, uma forma de contornar a censura (o próprio TóZé Brito em entrevista ao Expresso em 08/01/2011 afirma: " Em português não conseguíamos gravar. Os nossos discos eram proibidos pela censura uns atrás dos outros. E, às tantas, tivemos que começar a dizer coisas mais fortes em inglês").
Insisto, no entanto, na primeira hipótese considerando a evolução que o Quarteto e José Cid tiveram a partir daí.
"Back to the Country" é já outra faceta do Quarteto 1111, com influências sonoras a fazer lembrar Santana ou ainda Brian Auger, boas referências, portanto. O melhor estava a chegar ao fim e o pior já espreitava uma oportunidade para se instalar, acabar com o Quarteto, substituí-lo por uns duvidosos Green Windows e catapultar José Cid para um futuro menos interessante.
Em termos de vendas "Back to the Country" foi relativamente bem conseguido e em Fevereiro de 1971 ocupava o 11º lugar no Top Nacional de Singles e EP, onde também aparecia "Walk on the Grass" do Paulo de Carvalho e o destaque ia para "Lonely Days " dos Bee Gees. Já nos álbuns, a música era outra, José Afonso ocupava o 1º lugar com "Traz Outro Amigo Também".
Agora, ouçamos "Back to the Country" do Quarteto 1111. Quem não conhecer, com certeza que não o identificaria como uma música do Quarteto, muito menos com José Cid.
Ainda a propósito do prefácio de Joaquim Fernandes ao livro “O Mundo da Música Pop” de Rolf-Ulrich Kaiser com edição em 1973: “ O salto dos conjuntos para as individualidades*, (antes só que mal acompanhados) não se processou sem que, no panorama musical falho de inventiva, despontasse um raio de esperança: o conjunto 1111. O agrupamento de José Cid entrou de «pé em riste» no mercado discófilo nacional e nos cérebros dos auditores, dominados pelos Calvários & Madalenas. «D. Sebastião» apareceu como «salvador descoberto» em manhã de sol radiante. É esse o caminho – teria gritado muita gente bem intencionada. De facto, as intenções do 1111 pareciam ser, se não a salvação nacional, pelo menos uma panaceia de efeitos confortáveis para os ouvidos. Passada a euforia, José Cid iniciou o caminho do retrocesso, deixando a solução da Provence (chamado de novo em auxílio dos menestréis lusitanos) e apadrinhando sonhos «reformistas» com alguns «balões de oxigénio» considerados essenciais à sobrevivência do culto do fácil e do rentável (José Cheta p. e.).”
Do “raio de esperança” que foi o Quarteto 1111 já aqui dei nota por diversas vezes: “A lenda de el-rei D. Sebastião”, “Trovas do vento que passa”, “Nas Terras Do Fim Do Mundo”, do “caminho do retrocesso” ainda hei-de dar. Finalmente os «balões de oxigénio», José Cheta foi um deles.
Em 1970 José Cheta grava o seu primeiro EP com o acompanhamento notório do Quarteto 1111 e dele se destacou “Para lá daqueles montes” uma musiquinha pop, com alguma divulgação, que podemos recordar no vídeo.
“Para lá daqueles montes” foi mesmo assim o melhor que José Cheta cantou. A colaboração de José Cid com José Cheta manteve-se sempre em decrescendo de que é testemunho a muito conhecida e popularucha “Amanhã, amanhã” ou o “culto do fácil e do rentável”.
Apetece dizer, não vale cheta.
Adriano Correia de Oliveira faz parte de um conjunto reduzido de nomes que tiveram uma influência maior na renovação musical do fado de Coimbra.
A par de José Afonso transformam, cada um à sua maneira, o vazio e alguma lamechice do fado de Coimbra na nova canção de Coimbra, na canção da resistência. O fado de Coimbra renova-se musicalmente mas também ao nível das letras com destaque para a poesia de Manuel Alegre. Adriano Correia de Oliveira é a verdadeira síntese dos então tempos de mudança: quer na forma, quer na substância, mas também na ética e na estética, estamos na presença de algo radicalmente novo.
“Trova do vento que passa” gravado em 1963 vem-no confirmar, transformando-se num hino do movimento estudantil e da resistência à ditadura.
Recordemos então “Trova do vento que passa”, com o timbre inconfundível de Adriano Correia de Oliveira.
“Trova do vento que passa”, poema de Manuel Alegre, manter-se-ia até ao 25 de Abril como uma das canções mais populares da resistência.
Nos conjuntos Pop/Rock da época quase só no Quarteto 1111 de José Cid era notória a oposição ao regime. O álbum de 1970 marcado pela temática da emigração e da guerra colonial chega mesmo a ser retirado do mercado.
É neste primeiro álbum, de grande preocupação musical e também literária, que se encontra o melhor do Quarteto 1111. E é neste álbum que nos deparamos com “As trovas do vento que passa” versão muito bem alcançada.