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terça-feira, 3 de maio de 2022

Ermelinda Duarte - Somos Livres

 

Começo hoje mais uma série de recordações dedicadas à música popular portuguesa, desta vez centradas no ano de 1975.

Foi um ano fértil em termos musicais. Claro que teremos que contextualizar e lembrar que aquele ano foi também ele fértil em acontecimentos sociais, vivíamos então o prolongamento da revolução do 25 de Abril do ano anterior, a radicalização da sociedade portuguesa era enorme e as forças de esquerda predominavam no país. Um país que viveu esperanças e desilusões de que a música popular fez eco, da mais ligeira à mais elaborada.

De um modo geral as letras eram de pendor social com apelos directos à mobilização popular e combate aos anos obscuros de que o país se livrava, relativamente fracas e as músicas associadas igualmente apelativas, fáceis de ficar no ouvido como convinha. Mas, mesmo assim, encontraremos um pouco de tudo, desde as que ficaram vincadamente marcadas pelos acontecimentos daquele ano, a novas propostas musicais que então agradavelmente despontavam.

Assim, sem qualquer filtro de gosto pessoal, aqui procurarei recordar ou dar a conhecer canções que, boa parte delas, fizeram parte do nosso quotidiano.


https://www.discogs.com/


Começo com uma das mais ouvidas, "Somos Livres" na interpretação da Ermelinda Duarte. 

Ermelinda Duarte, actriz e cantora, compôs e deu a voz para esta canção que exalta a liberdade conquistada com o 25 de Abril. A canção teve arranjos de José Cid e fazia parte da peça de teatro "Lisboa 72/74".

Julgo que a canção é ainda de 1974, mas a sua popularidade prolongou-se bem pelo ano de 1975.



Ermelinda Duarte - Somos Livres

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ralph McTell - Streets of London

Canções que se ouviam no ano de 1975


"Canções que se ouviam em 1975", novo tema como pretexto para recordar algumas canções que naquele ano andaram pelos top nacionais, ingleses e americanos e um pouco por todo o lado. Um ano difícil para a música popular que levou Miguel Esteves Cardoso a considerar que se "Atinge a fossa mais profunda e pestilenta...", na realidade foi um ano de encruzilhada onde o Rock se viu envelhecido e esgotado em experiências fusionistas perdendo a sua pureza e inocência iniciais e a partir do qual se iria assistir à revolta do Punk.

De qualquer forma, como espero mais tarde vir a recordar, no pântano floresciam verdadeiras pérolas da música popular de Joni Mitchell a Neil Young, de Bruce Springsteen a Patti Smith.

Algumas canções ficaram na memória de todos nós, outras nem por isso como é o caso de hoje.


https://www.discogs.com/


Nos primeiros dias de 1975 nos primeiros lugares de vendas da Grâ-Bretanha encontrava-se Ralph McTell com a grande canção que é "Streets of London". Na realidade "Streets of London" é uma canção que surgiu pela primeira vez no LP "Spiral Staircase" de 1969, mas foi numa regravação e edição em Single em 1974 que ela alcançou notoriedade nos Top do Reino Unido, foi igualmente incluída no LP "Streets..." de 1975. Os sons dos anos 60 ainda sobreviviam em 1975, mas estes não chegavam cá.

Para minha satisfação tive oportunidade de ver Ralph McTell ao vivo em 2017 durante o festival Fairport's Cropredy Convention.



Ralph McTell - Streets of London

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Sandy Denny - At the End of the Day

1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso

Última passagem pelas escolhas de Miguel Esteves Cardoso para o ano de 1974 de acordo com o texto "O Ovo e o Novo - (Uma) Discografia duma Década de Rock: 1970-1980". E para o fim deixei a "minha" Sandy Denny com o seu álbum "Like an Old Fashioned Waltz".

"Like an Old Fashioned Waltz" era o terceiro de quatro álbuns a solo que editou entre 1971 e 1977 e talvez o mais controverso entre os seus admiradores. Por um lado uma Sandy Denny mais versátil à procura de um reconhecimento de um público mais alargado, que nunca conseguiu, levando-a a realizar um disco com arranjos mais arrojados e a incluir dois temas standards de Jazz fruto de memórias de infância, os mais tradicionalistas e conhecedores das suas potencialidades prefeririam um disco mais intimista e despojado.

Para agradar a todos existe uma edição em duplo CD, Deluxe Edition coma ref: 370 028-8 de 2012, onde se podem encontrar todas as faixas do álbum original (excepto "Carnival") em versões sem os arranjos orquestrais


Edição Carthage com a ref: CGLP 4425, em vinil, de 1986


De qualquer forma  é um disco admirável e relativamente pouco conhecido, como aliás a generalidade da sua obra, "At the End of the Day" é mais uma preciosidade a descobrir. No dizer da própria Sandy Denny: "Anyone who has ever been away from home for a log time, and has felt a little homesick, will understand the sentiment behind this song. I wrote it on the plane journey home, after an extensive tour of the United States."





Sandy Denny - At the End of the Day

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Joni Mitchell - Free Man In Paris

  1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Joni Mitchell continua, em 1974, a desenvolver uma carreira que seria a todos os títulos invejável. Álbum após álbum surpreendia-nos, primeiro com um Folk mais "simples" e uma voz invulgar, depois uma progressiva diversificação instrumental (viola, piano, dulcimer... orquestra) tornaram-na uma das mais respeitadas cantoras norte-americanos. Naqueles anos, e do outro lado do Atlântico estava no topo das minhas preferências a par de Leonard Cohen e Neil Young (por coincidência, os três canadienses).

Joni Mitchell talvez de todos a que melhor atravessou toda a década de 70.

Miguel Esteves Cardoso escrevia: "Joni Mitchell ilustra com perfeição inquietante o fenómeno raro duma evolução criativa que inova sem ruptura, que experimenta sem inconsciência e que abre novois caminhos sem ser à custa do encerramento de outros."

Quanto a "Court and Spark", o sexto álbum de originais, assim continua: "Qualquer ligação com os seus três primeiros álbuns é praticamente impossível de descobrir, em termos de arranjos ou de pureza acústica." e mais à frente: ""Court and Spark" representa uma ousadia recompensada. A partir daqui Joni Mitchell irá abandonando gradualmente os confins do Rock e as fórmulas Pop, satisfeita com os resultados, mas insatisfeita com a relatividade da meta".



Edição em vinil, alemã, com as ref:
AS 53 002, (7E-1001), K 53 002


"Court and Spark" está entre os álbuns de maior sucesso de Joni Mitchell, era nele que apareciam faixas como "Help Me" e "Free Man In Paris". Ora ouçam esta última, uma pequena delicia tão gostosa de se ouvir.



Joni Mitchell - Free Man In Paris

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Richard and Linda Thompson - I Want to See the Bright Lights Tonight

 1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso

E para o fim três trabalhos que se encontram entre as escolhas de Miguel Esteves Cardoso para o ano de 1974 e que são os meus preferidos. Começo com Richard and Linda Thompson e o álbum "I Want to See the Bright Lights Tonight".

Depois da saída dos Fairport Convention no início de 1971, Richard Thompson teve alguns anos discretos mas bem activos tendo participado em alguns álbuns importantes de outros artistas como Sandy Denny, Ian Matthews (os dois ex-Fairport Convention), John Martyn e os irmãos Waterson e ainda gravado o primeiro falhado e hoje bem recuperado 1º LP a solo "Henry the Human Fly" (1972).

Em 1969 tinha conhecido Linda Peters com quem viria a casar em 1972. Ligação que, enquanto durou, resultou musicalmente em seis álbuns antológicos do melhor Folk-Rock britânico. 

O primeiro álbum, "I Want to See the Bright Lights Tonight", assinado Richard and Linda Thompson data de 1974 leva Miguel Esteves Cardoso a considerá-lo "O álbum do ano" com a atribuição de cinco estrelas. Diz ainda que se está na presença de "... retrato amargo e revoltado da sociedade tecnológica que leva o idioma folk inglês ao ponto de ruptura, pondo em causa as suas premissas de inocência e de naturalismo com uma força só anteriormente vista em Sandy Denny. A superfície da música é tosca, as harmonias vocais honestamente discordantes e todas as letras subvertem os temas e as fórmulas tão queridas a uma tradição adormecida. "I Want to See The Bright Lights Tonight" esgota a ideologia romântica do princípio da década, enterrando-a com um brado, chorando-a com um canto."



Edição USA, 1983, com a ref: CGLP 4407


Sem margem para dúvidas, um grande disco donde saíram canções tão representativas como a faixa título, "The Calvary Cross", "Withered and Died", "Down Where the Drunkards Roll" ou ainda "The Great Valerio".

Agora, deliciem-se com "I Want to See the Bright Lights Tonight": 

Meet me at the station don't be late
I need to spend some money and it just won't wait
Take me to the dance and hold me tight
I want to see the bright lights tonight





Richard and Linda Thompson - I Want to See the Bright Lights Tonight

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Bob Dylan - Forever Young

1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Bob Dylan é um caso à parte em toda a história da música popular. Quase 60 anos de gravações e cerca de 40 álbuns de estúdio editados e Bob Dylan continua a ser uma referência para sucessivas gerações encontrando nele uma fonte de inspiração certa. É também certo que nem toda a sua discografia é, digamos, indispensável, mas também é verdade que não se consegue, desde os anos 60, atravessar uma década sem a ele nos referirmos, a de 70 não é excepção.

Para Miguel Esteves Cardoso "Bob Dylan entrou mal na década, com o terrível "Self-portrait" (70), o medíocre "New Morning" (70) e uma banda sonora muito insonsa em "Pat Garrett" (73)." Considerava mesmo que "Chegaria ao fim da década sem um único grande álbum, embora "Blood on the Tracks", "Desire" e "Slow Train Coming", tenham momentos de grande inspiração."

Em 1974 publica "Planet Waves" e, atribuindo-lhe três estrelas, a ele se refere assim: ""Planet Waves", embora contenha duas ou três cancões decentes, não satisfaz. ("Forever Young" será a única com a estrutura das suas composições de 60)."


https://www.discogs.com/


"Fovere Young" é na realidade uma grande canção na senda do melhor que Bob Dylan criou, existindo em "Planet Waves" duas versões, uma a fechar o lado A e outra a abrir o lado B. Manifestamente é a primeira que ficou nos nossos ouvidos.

Bob Dylan, ainda hoje, "Forever Young"





Bob Dylan - Forever Young

domingo, 5 de setembro de 2021

Leo Kottke - Pamela Brown

   1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Segunda passagem por Leo Kottke, o mesmo motivo: as escolhas de Miguel Esteves Cardoso, neste caso do ano de 1974 e o álbum "Ice Water" ao qual concede três estrelas.

Leo Kottke dotado tocador de guitarra acústica nunca conheceu o estrelato, a sua música assenta numa amálgama de estilos da música tradicional norte-americana bem retratada, apresentando uma discografia bem regular nas décadas de 70,80 e 90.


https://www.discogs.com/


A música de "Ice Water" tem o seu quê de melancólica e reflexiva, sendo muito bem tocada e bem cuidada nos seus arranjos. Não sendo o seu melhor trabalho é de agradável audição, como, por exemplo, esta "Pamela Brown" com o seu toque Country tão encantador. Um bom momento de relaxamento, ora ouça-se.



Leo Kottke - Pamela Brown

sábado, 4 de setembro de 2021

Gram Parsons - Love Hurts

  1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Os primórdios do Country-rock encontram-se nos anos 60 em formações como The Byrds, Buffalo Springfield e The Flying Burrito Brothers. Gram Parsons (1946-1973) que passou precisamente pelos The Byrds (1968) e The Flying Burrito Brothers (1969–1970) foi um dos seus impulsionadores e uma das principais referências daquele gênero musical. Posteriormente desenvolve carreira a solo que teve na  jovem Emmylou Harris parceira quer em concertos quer nos dois álbuns que entretanto realizou.

"Grievous Angel", o segundo LP, foi gravado em 1973 e editado postumamente já em 1974. Miguel Esteves Cardoso referia-se-lhe assim: "Gram Parsons deixa um deslumbrante testemunho do seu talento para casar a sua alegria tranquila com uma singela tristeza sentimental em "Grievous Angel"." e atribui-lhe cinco estrelas destacando-se assim num ano menos abundante em discos de alta qualidade.


Edição em CD de 1990 c/ a ref: 7599-26108-2 com os dois LP
"GP" e "Grievous Angel"


"Love Hurts" é uma canção gravada pela primeira vez pelos The Everly Brothers em 1960 e que teve várias versões de significativo êxito como a dos Nazareth em 1974, mas, para mim, sem a riqueza da que consta no álbum "Grievous Angel" em dueto com a Emmylou Harris.



Gram Parsons - Love Hurts

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Ry Cooder - Tamp' Em Up Solid

 1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Pese Ry Cooder não ser um nome dos mais sonantes da música popular, não sendo os seus discos objecto de grande divulgação, não impediu que Miguel Esteves Cardoso o considera-se, em 1980, como um dos "sobreviventes" da década de 70 colocando-o de acordo com a regularidade e qualidade apresentada numa "Segunda constelação" ao lado de nomes como Neil Young, Lou Reed e Van Morrison (a "Primeira constelação" estava reservada a Joni Mitchell, Leonard Cohen, David Bowie e Bob Marley).

Ry Cooder, mais conhecido pela música do filme "Paris, Texas" (1985) e colaboração no projecto "Buena Vista Social Club" (1997), em 1974 editava o seu 4º álbum de nome "Paradise and Lunch" e encontra-se entre as escolha de Miguel Esteves Cardoso atribuindo-lhe generosamente quatro estrelas. Sobre ele diria: "Ry Cooder dá-nos um álbum equilibrado, simples e profundamente enraízado."



Edição alemã com as refs: 244 260; 2179-2




"Released in May of 1974, Paradise And Lunch showcases the diverse range of musical styles that distinguish Ry Cooder as one of the most versatile and eclectic artists in pop history. Vintage R&B selections mix with traditional blues, gospel and ministrel-era gems on an album that is both an homage to, and an innovative reworking of, American roots music", consta nas notas da edição em CD que possuo.

Fica-se logo cativado com a faixa de abertura, um tradicional de nome "Tamp' Em Up Solid" bem representativa do género Americana do qual Ry Cooder é um dos seus melhores intérpretes.




Ry Cooder - Tamp' Em Up Solid

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Neil Young - See the Sky About to Rain

1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Para Miguel Esteves Cardoso aqueles que melhor atravessaram a década de 70 estavam divididos entre "instável/experimental" e "estável/tradicional", entre os primeiros encontravam-se, por exemplo, David Bowie e Joni Mitchell, nos segundos, por exemplo, Leonard Cohen e Neil Young.

Mas, como Miguel Esteves Cardoso sublinha, a diferença é sobretudo de "enfase e exibição" pois "ambos mudam" embora considere que "os primeiros exibem dramaticamente as suas decisões, enquanto os segundos ou as escondem ou não as exibem". Uns e outros, afinal aqueles que melhor passaram pelos anos 70, e não só digo eu, estão, pela sua criatividade e inovação, entre os melhores representantes da música Rock. E como qualquer outra arte sujeita à "persistência através dos tempos" não sendo pois justo "considerar o Rock como uma arte popular menor, inteiramente governada pelos caprichos da moda", para concluir que "As verdadeiras canções, as de Marley, de Cohen, de Mitchell, as de Dylan e de Neil Young, estarão connosco durante muito tempo, como a música "folk" do século 24."


1ª edição em CD de 2003 com a ref: 9362-48497-2


Neil Young, com o álbum "On The Beach" encontrava-se entre as escolhas de Miguel Esteves Cardoso para o ano de 1974 tendo atribuído quatro estrelas. Actualmente, diria pouco para um dos melhores trabalhos que Neil Young realizou até hoje.

"On The Beach" continua a exploração de sonoridades nas fronteiras do Folk-Rock com matizes bluesy poucos comuns na sua discografia, veja-se a designação de alguns temas, "Vampire Blues", "Revolution Blues" e "Ambulance Blues". Ainda na senda dos álbuns "Harvest" e "After the Gold Rush" estava este magnífico "See the Sky About to Rain".



Neil Young - See the Sky About to Rain

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Leonard Cohen - Take This Longing

    1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Cinquenta e dois anos separam o primeiro, "Songs of Leonard Cohen" (1967), e o último álbum, "Thanks for the Dance" (2019), este já publicado postumamente, de uma discografia riquíssima composta de quinze álbuns de estúdio que Leonard Cohen nos deixou. Se é verdade que no todo temos uma obra fascinante que o colocam entre os cantautores Folk norte-americanos mais importantes de sempre, não é menos verdade que é nos trabalhos iniciais e que se prolongam pela década de 70 que se encontra o melhor e mais cativante Leonard Cohen.

Depois do insuperável "Songs of Love and Hate" (1971) só voltaria aos originais em 1974 com o álbum "New Skin for the Old Ceremony", mais um grande trabalho mas onde se faziam sentir a falta dos arranjos de Paul Buckmaster substituídos por uma sonoridade mais convencional.

Para Miguel Esteves Cardoso Leonard Cohen voltou "...em 1974, com um novo e magnífico álbum", e sobre ele dizia "Depois da escuridão de "Love and Hate", "New Skin" marca um renascimento" sendo "...o álbum mais claramente diversificado de todos - é uma colecção que não mostra o mais pequeno desequilíbrio.", atribuiu-lhe, naturalmente, cinco estrelas.


Edição em CD de 1988 com a ref: CDCBS 32660


Um disco maravilhoso, sem dúvida, e ao chegar à penúltima faixa encontramos esta pérola: "Take This Longing". Sobre ela escreve Miguel Esteves Cardoso: "Há também um regresso ao amor brando do seu primeiro álbum, com "Take this Longing", se bem que já não haja qualquer indício de platonismo. "Take this Longing" é uma belíssima afirmação de desejo, de lonjura, de força carnal. Os elementos líricos são mais ténues, mas existe uma nudez de propósitos que é fundamentalmente romântica, e a melodia, então, ultrapassa até o padrão convencional de Cohen, igualando em beleza musical as canções como "Suzanne" ou "Hey That's No Way to Say Goodbye". 



Leonard Cohen - Take This Longing

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Tim Buckley - Look at the Fool

   1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


O melhor do ano de 1974 encontrava-se, para além do vanguardismo que ia dos Roxy Music a David Bowie, na área que muito genericamente podemos considerar do Folk-Rock com alguns dos seus protagonistas habituais. Mas mesmo aqui, alguns deles, e que estão no topo, ainda hoje, das minhas preferências, ficaram aquém das expectativas. Por exemplo: Tim Buckley.

Tim Buckley (1947-1975) tem em 1974, com "Look at the Fool", o seu último trabalho, faleceria o ano seguinte de overdose de heroína. Longe se encontrava musicalmente dos anos e discos de Folk-Rock que o tornaram numa das figuras mais reverenciadas da música popular norte-americana. Abraçando a partir de 1970 influências do Soul e do Funk não mais voltou, infelizmente, a alcançar o nível alcançado por exemplo em "Goodbye and Hello" (1967).

Miguel Esteves Cardoso considerava que "... foram poucos e bons os álbuns de1974"Tim Buckley tinha sido uma "desilusão", mesmo assim deu-lhe três estrelas por "Look at the Fool" aquele que acabaria por ser o seu último álbum.


https://www.discogs.com/


Um compositor e uma voz extraordinária que enveredou por um caminho que não era o dele. Mesmo assim ouça-se "Look at the Fool".



Tim Buckley - Look at the Fool

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Eric Clapton - Motherless Children

  1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


É sabido dos problemas que Eric Clapton teve no inicio dos anos 70 com a droga e o álcool que  o levou ao afastamento dos palcos e das gravações. Depois do primeiro álbum a solo "Eric Clapton" (1970), só em 1974 voltou aos discos publicando "461 Ocean Boulevard" o tal que trazia a versão de "I Shot the Sheriff" (aqui disponível) e que ajuda a dar impulso no reconhecimento de Bob Marley e do Reggae em geral.

Três estrelas foi quanto Miguel Esteves Cardoso conferiu a este álbum referindo-se-lhe: "... Clapton emerge da apatia com um LP quase fresco que exibe novamente os seus descansados e agradáveis dotes de guitarra."


https://www.discogs.com/



De um dos guitarristas mais famosos do mundo, do qual lamento o seu actual posicionamento anti-confinamento e anti-vacinação, escolhi a faixa de abertura, " Motherless Children", um tradicional recuperado e bem por Eric Clapton.



Eric Clapton - Motherless Children

domingo, 15 de agosto de 2021

Van Morrison - Bulbs

  1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Van Morrison está entre os meus músico preferidos de sempre. Entre 1968 e 1974 gravou 7 álbuns que considero imprescindíveis  e bem significativos da música popular daqueles anos. Não tivesse gravado mais nada e mesmo assim teria lugar na galeria das figuras mais importantes na criação de uma sonoridade fusionista e renovadora.

Tenho pena de não o ter visto ao vivo neste período de que é testemunho o álbum ao vivo "It's Too Late To Stop Now" (1974), um dos melhores álbuns ao vivo que conheço. Vi-o em 1993 no Coliseu do Porto e em 2018 em Cascais e aquilo que posso dizer é que soube envelhecer, em 2018 melhor que em 1993. Sob o ponto de vista discográfico não mais deslumbrou, como eu tenho dito por várias vezes ancorou no porto seguro do Blues e com algumas variações que lhe são características e por aí ficou.

Adiantado no tempo é quanto parecia estar Miguel Esteves Cardoso ao referir-se ao álbum "Veedon Fleece" de 1974, já aqui dizia ele "Van Morrison recusa-se a avançar além do conforto encontrado ..." atribuindo somente três estrelas a este trabalho.



Edição alemã em vinil de 1989 com a ref: 839 164-1


"Veedon Fleece" tem sido revisto positivamente ao longo dos tempos e parece ter-se tornado consensual que se encontra entre os melhores álbuns que Van Morrison realizou. Marcou, pelo menos o fim de uma época, Van Morrison só voltaria a gravar três anos depois com o sofrível "A Period of Transition".

"Bulbs", editado em Single é o que fica para se ouvir, no sossego da noite...



Van Morrison - Bulbs

sábado, 14 de agosto de 2021

Kraftwerk - Autobahn

 1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Desde 1972 que se encontram entre as escolhas de Miguel Esteves Cardoso, eram os Kraftwerk. Sem nunca me terem empolgado tenho que reconhecer que foram naqueles tempos inovadores e inevitavelmente tinha que os ouvir. Em 1974 era incontornável a audição dos Kraftwerk e em particular a faixa "Autobahn"

"Autobhan" era também o nome do álbum que incluía o tema, agora numa versão de mais de 22 minutos que ocupava todo o lado A do LP, para ele Miguel Esteves Cardoso classificou com três estrelas. Em termos de Singles considera que o ano é de "I Shot The Sheriff" de Eric Clapton e também "Rebel, Rebel" de David Bowie, mas "O melhor é "Autobahn" dos Kraftwerk...".

Sim, foi em 1974 que a música "robotizada" dos Kraftwerk teve difusão internacional e que se tornou bastante popular pese a frieza e falta de emoção que ela transportava. Indiferentes ao Punk e à New Wave que iriam surgir os Kraftwerk ir-se-iam manter bem à tona da do sucesso com disco como   "Radio-Activity" (1975), " Trans-Europe Express" (1977) e "The Man-Machine" (1978).


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Agora é imaginarem-se a guiar numa auto-estrada a ouvir "Autobahn", "Wir fahren, fahren, fahren auf der Autobahn".



Kraftwerk - Autobahn

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

David Bowie - Rebel, Rebel

1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Lou Reed e David Bowie foram figuras proeminentes da música Rock coom destaque aos primeiros anos da década de 70, os dois com gostos estéticos vanguardistas ao explorarem sabiamente um Pop-Rock dito decadente. Pontos altos o álbum "Transformer" (1972) de Lou Reed produzido por David Bowie e o álbum "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" e respectiva digressão com David Bowie qual salvador messiânico do agonizante planeta Terra com somente cinco anos para se salvar.

Para Miguel Esteves Cardoso David Bowie em "Diamond Dogs", ao qual atribuiu três estrelas, "... quer apresentar um mundo destruído, populado por estranhas mutações humanas, que faz lembrar certas imagens de Chirico e não é de todo estranho à visão do filme de Kubrick "A Clockwork Orange".

Ambos estavam adiantados no tempo, se "Rock'n'Roll Animal" de Lou Reed era "... um monumento às intenções da New Wave americana de 77", a canção "... "Rebel, Rebel" de Bowie constituiria uma espécie de hino tradicional para a geração dos Sex Pistols...".


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E a canção que ficou deste LP foi, sem dúvida, "Rebel, Rebel" que fica como sugestão de audição.



David Bowie - Rebel, Rebel

Lou Reed - Intro, Sweet Jane

  1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Ainda neste grupo de vanguarda, irrequieto que esteve na década 70 em constante pesquisa/evolução não deixando estagnar pelo êxito inicial mais dois nomes que editaram no ano de 1974 e incontornáveis na história da música Rock pós anos 60: Lou Reed e David Bowie.

Segundo Miguel Esteves Cardoso "Lou Reed e David Bowie regressam à crueza do Rock and Roll, talvez enfastiados com a indefinição atmosférica dos seus álbuns de 73", recorde-se "Berlin" e "Alladin Sane", "Pin-Ups" respectivamente. Talvez fossem estes "regressos" que permitiam depois novos avanços, "Coney Island Baby" para Lou Reed em 1975 e "Station To Station" para David Bowie em 1976.

Hoje Lou Reed, amanhã David Bowie.

Lou Reed edita dois álbuns, "Rock 'n' Roll Animal" e "Sally Can't Dance" aos quais Miguel Esteves Cardoso atribui respectivamente quatro e e três estrelas.



Edição portuguesa em vinil de 1975 com a ref: APL1 0472


"Rock 'n' Roll Animal" é primeiro álbum ao vivo de Lou Reed, composto por somente cinco faixas, quatro das quais vindas do tempos dos The Velvet Underground e talvez fosse por isso que Miguel Esteves Cardoso escreveu:"... Reed mostra que nunca perdera a sua paixão de adolescente...", mas ao mesmo tempo adiantado no tempo ao considerar ""Rock'n'Roll Animal" um monumento às intenções da New Wave americana de 77".

"Rock 'n' Roll Animal" começa com uma introdução a que se segue "Sweet Jane", uma das muitas canções que ficaram como marca do génio de Lou Reed. "Sweet Jane" vinha do 4º LP "Loaded" dos The Velvet Underground já sem a presença de John Cale. Grande interpretação esta.



Lou Reed - Intro, Sweet Jane

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Nico - The End

 1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Nico (1938-1988) foi uma extraordinária cantora de origem alemã que nos anos 60 fez parte do movimento underground novaiorquino liderado pelo artista Andy Warhol que a impôs no primeiro álbum dos The Velvet Underground de que foi produtor.

Depois do seu afastamento dos The Velvet Underground procurou encontrar o seu próprio estilo, "Foi durante este período que encontrei Jim Morrison e foi ele que finalmente me aconselhou a escrever as minhas próprias canções e a interpretá-las eu mesma, sozinha..." - em "Jim Morrison, para lá dos Doors" de Hervé Muller. Conselho seguido e eis "Chelsea Girl" (1967), "The Marble Index" (1968) e "Desertshore" (1970), este último já gravado no seu regresso à Europa. Participa em filmes de  Philippe Garrel mas continua a actuar em público, em 1972 actua no Bataclan com John Cale e Lou Reed (" Le Bataclan '72", editado em 2004) e em 1974 no Rainbow Theater com Kevin Ayers, John Cale, Brian Eno ("June 1, 1974" de que já dei conta).

E chega-se assim a "The End..." o seu 4º álbum onde marcaram presença John Cale, o suspeito de costume, e ainda Phil Manzanera e Brian Eno que estava em todo o lado.



Edição em vinil do Reino Unido com a ref: ILPS 9311


Nas escolhas de Miguel Esteves Cardoso "The End..." teve três estrelas e escreveu ele: "Nico, sempre produzida e acompanhada pelo génio distorcido de John Cale, torna-se cada vez mais prisioneira do seu castelo gótico, cantando o desfecho da humanidade e da beleza como uma invocação apaixonada à escuridão. É um romantismo doentio, sufocado pela poesia da sua angústia interior e Nico será o "anjo azul" dos anos 70. presidindo ao apocalipse como uma musa caída na desgraça, expulsa do paraíso de outrora. Ferozmente original, Nico nem sempre sabe conter a sua tendência para o exagero e não há dúvida que os seus álbuns mais emocionantes (mas menos perturbantes) datam da década anterior."

"The End" é no original uma canção dos The Doors com uma impressionante interpretação do grupo e de Jim Morrison em particular, a qual, pensava eu, não haveria alguém a querer interpretá-la pois seria insuperável. Surpresa minha, e boa surpresa, quando Nico resolveu inclui-la no seu reportório e gravá-la dando mesmo nome a este álbum.



Nico - The End

terça-feira, 10 de agosto de 2021

John Cale - Fear Is A Man's Best Friend

1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


Nas escolhas de Miguel Esteves Cardoso Brian Eno marca ainda presença em mais um álbum, é ele "Fear" de John Cale onde para além de assegurar os sintetizadores é também produtor, colaboração que se iria prolongar ao longo do tempo e culminar num álbum conjunto em 1990 com "Wrong Way Up".

Duas figuras importantes na história do Rock e que o colocaram em patamares bem sofisticados e não acessíveis ao comum dos consumidores.

"Fear" era o seu 4º trabalho a solo, seguindo-se ao belíssimo "Paris 1919", e sobre ele Miguel Esteves Cardoso considera que "... embora excessivamente indulgente e completamente destituído de qualquer perspectiva crítica, dá uma ideia convincente da irrequieta imaginação e inteligência de ambos", fica-se pelas três estrelas.


https://www.discogs.com/


A originalidade da música de John Cale era evidente desde os primórdios dos The Velvet Underground e prolongou-se na sua carreia a solo. "Fear" é disso evidência e embora nem sempre se adira facilmente foi um disco subestimado no seu tempo.

"Fear Is A Man's Best Friend", um grande tema, uma amostra da genialidade de John Cale.



John Cale - John Cale - Fear Is A Man's Best Friend

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Kevin Ayers, John Cale, Eno, Nico - Baby's on Fire

 1974 Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso


A presença de Brian Eno prolonga-se para o Regresso ao Passado de hoje num álbum gravado ao vivo e que teve como principais protagonistas, para além dele próprio, John Cale, Nico e Kevin Ayers, mas também por lá passaram como convidados especiais Mike Oldfield e Robert Wyatt.

A ideia inicial terá partido de Kevin Ayers que convidou Nico e por tabela John Cale, os dois ex-The Velvet Underground da formação inicial. John Cale encontrava-se a gravar com Brian Eno  e vai daí este também participa no concerto. Já Robert Wyatt era bem conhecido de Kevin Ayers dos seminais Soft Machine onde militaram nos anos 60 e o jovem Mike Oldfield que fez parte da sua banda, The Whole World, em 1970. E assim a 1 de Junho de 1974, data que deu nome ao álbum, "June 1, 1974", realizaram este concerto, no Rainbow Theatre em Londres.


Edição em CD de 1990 com as refs: IMCD 92; (842 552-2)


Miguel Esteves Cardoso considerou o "... concerto desigual mas refrescante..." e deu-lhe somente três estrelas o que correspondia a "bom".

Num tempo em que o Rock se desenvolveu muito além das suas fronteiras iniciais e se aventurou na exploração de novas sonoridades e que acabou por ficar conhecido por Rock de vanguarda ou experimental, os músicos que participaram neste concerto tiveram boa parte da responsabilidade na sua elaboração e divulgação.

Para ouvir pode ser "Baby's on Fire" um tema de Brian Eno e que fazia parte do seu primeiro álbum a solo, " Here Come the Warm Jets", também de 1974. 



Kevin Ayers, John Cale, Eno, Nico  - Baby's on Fire