Com o fim dos The Beatles em 1970, as expectativas em relação a cada um deles eram muito diferenciadas.
Em relação a Ringo Starr as expectativas eram nulas e assim se confirmaram.
Já em relação a Paul McCartney acreditava-se no melhor, mas o melhor nunca chegou a concretizar-se. Alguns álbuns interessantes, mas o grande disco não aconteceu (e já não vai ser agora). George Harrison teve o seu maior arrojo de criatividade, logo em 1970, com o triplo álbum “All Things Must Pass” e o melhor ficou aqui.
Com John Lennon a cena foi um pouco diferente, teve, apesar de tudo, uma discografia mais consistente. Depois da experiência com a Plastic Ono Band (por exemplo: “Mother”), grava o álbum “Imagine” a figurar entre os melhores de toda a história dos 4 músicos que compuseram The Beatles. Continuou a gravar com qualidade irregular, destacando-se dos outros ex-Beatles, até à sua morte a 8 de Dezembro de 1980.
Uma semana depois da sua morte encontrava-me eu em Londres e o som de “Double Fantasy” (álbum muito desigual), acabado de sair, invadia as ruas e espaços comerciais.
“Woman” era das canções que mais se ouvia e é a que segue.
1971 - Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso Depende dos gostos, mas muito provavelmente o melhor trabalho de um ex-Beatle vai para John Lennon e o seu "Imagine" decorria o ano de 1971.
Miguel Esteves Cardoso dá-lhe mesmo 5 estrelas e considera que "O álbum do ano, no Reino Unido, é "Imagine" - menos dramático do que o anterior, mas mais equilibrado, com quatro composições potentes ("Give me Some Truth", "How Do You Sleep", "Crippled Inside" e "Jealous Guy") e uma nova acuidade lírica. Este seria o último álbum verdadeiramente indispensável de Lennon, apesar de momentos fulgurantes em "Wall and Bridges" (74)."
Efectivamente John Lennon (à semelhança dos restantes ex-Beatles), terá tido o seu melhor período nos primeiros anos da separação, caindo posteriormente em progressiva desinspiração.
Socorro-me ainda de Miguel Esteves Cardoso que se lhe refere da seguinte maneira: "Até ao ano de 1975, altura em que Lennon lança o seu último da década ("Rock'n'Roll"), não consegue recapturar a garra irrequieta que inscrevera nas obras-primas de 1970, se bem que nunca tenha deixado de se manter fiel aos seus princípios."
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Fugindo à super conhecida "Imagine", a escolha recai sobre "How Do You Sleep?", resposta de John Lennon aos supostos ataques de Paul McCartney no álbum "Ram" desse mesmo ano.
mundo da canção nº 7 de Junho de 1970 John Lennon ainda estava nos The Beatles. Estávamos em 1969 quando John Lennon se casa com Yoko Ono, acontecimento que aproveitaram para efectuar várias manifestações pacifistas contra a guerra do Vietname. Entre elas encontravam-se as célebres "Bed-In" que realizaram em quartos de hotel com as portas abertas aos jornalistas.
"Give Peace a Chance" era o que John Lennon pretendia ao chamar a atenção da comunicação social com os seus "Bed-In", daí a tornar-se uma canção foi um instante. É num hotel em Montreal que "Give Peace a Change" é gravada, num simples gravador de quatro pistas, com a presença de dezenas de jornalistas e a presença de nomes famosos como Allen Gisnberg (poeta), Timothy Leary (escritor) e Petula Clark (cantora).
É no Verão de 1969 que a canção se torna um êxito, sendo a primeira gravação que surgiu sob o nome de Plastic Ono Band. Era o primeiro Single que ele gravava ainda como membro dos famosos The Beatles.
Retomo então "Give Peace a Chance", cuja letra vinha publicada na revista "mundo da canção" em Junho de 1970, ou seja praticamente um ano depois da sua edição.
Ao enorme desenvolvimento ocorrido nas décadas de 60 e 70 da música popular nas suas diversas formas, do Pop ao Jazz, tinha de corresponder logicamente um aumento na sua divulgação. Um pouco por todo o lado tal ocorreu e por cá não foi excepção pese as limitações de vivermos sob um regime fascista até 1974.
Progressivamente foi-nos dado ouvir na rádio programas de inquestionável valor que se dedicavam a passar o que de melhor a música popular anglo-saxónica, mas a portuguesa também, se fazia. Não só The Beatles e Rolling Stones se ouvia, também se ouvia desde os psicadélicos Grateful Dead, da costa oeste dos Estados Unidos, aos Fairport Convention renovadores do Folk inglês. O portugueses Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, José Mário Branco lá se conseguia ir ouvindo. Recordo-me de programas como: "Página um", "23ª Hora", "Espaço 3P", "Em Órbita", "Vector" em contraponto com outros programas por demais ultrapassados mas muito populares como "Quando o Telefone Toca" ou o "Clube das Donas de Casa".
Também no panorama escrito a situação se alterou radicalmente. Desde a quase nula existência de imprensa escrita musical ao surgimento de várias publicações, mais ou menos efémeras é verdade, fundamentalmente na década de 70. No início era a imprensa escrita especializada estrangeira como o "Melody Maker", o "New Musical Express" ou a "Rock & Folk", depois começámos a ter a nacional, primeiro o "mundo da canção", depois o "DISCO MÚSICA & MODA", a "memória do elefante", o "musicalíssimo" etc, etc.
A revista "mundo da canção", iniciada em Dezembro de 1969, tenho eu vindo a recordar regularmente os seus conteúdos, começo hoje os referentes ao jornal "DISCO MÚSICA & MODA" cujo início se verificou em Fevereiro de 1971. Era a seguinte a capa do nº 1:
Conforme se pode ver, o destaque maior ia para uma fotografia dos Crosby, Stills, Nash & Young, objecto de desenvolvimento no interior, havia também uma foto de Elton John, realço ainda uma entrevista de Mick Jagger, e a preparação do VIII Grande Prémio TV da Canção. Sob o título "Não acredito nos Beatles" um texto relativo a entrevista de John Lennon concedida à "Rolling Stone" tinha ainda lugar na 1ª página.
"Sim, não acredito nos Beatles. O sonho acabou. Temos que acordar e encarar uma coisa que se chama realidade", dizia ele. Nessa altura ouvia-se "Love" do álbum "John Lennon/Plastic Ono Band" o primeiro após o fim dos The Beatles. E o sonho continuava...
1970 - Algumas escolhas de Miguel Esteves Cardoso
O 3º LP, na área do "Mainstream" com 5 estrelas nas escolhas de Miguel Esteves Cardoso, no ano de 1970, que ele publicou no longo artigo "O Ovo e o Novo - (uma) Discografia duma Década de Rock: (1970-1980)" e que eu tive a felicidade de obter, pois constava na 2ª edição do livro "POPMUSIC-ROCK", foi o álbum "John Lennon/Plastic Ono Band"
Tratava-se do 1º álbum a solo de John Lennon, depois da separação dos The Beatles naquele mesmo ano, e foi seguramente um dos seus melhores. "Na Inglaterra, os Beatles fazem o mesmo que fizeram os CSN&Y nos Estados Unidos - os seus talentos explodem brilhantemente, mas é também, para todos os efeitos, o canto de cisne", comentava o Miguel Esteves Cardoso no citado artigo. E adiantava ainda relativamente a este álbum: "Ainda hoje, as canções poderosamente confessionais desse álbum de 1970 (com realce para a força crua de "Mother" e a honestidade autobiográfica de "Working Class Hero") rivalizam em qualidade com as melhores canções dos Beatles."
Tinha eu 15 anos, andava no 6º ano do liceu (actual 10º ano) e lembro-me tão bem deste disco, em particular de canções como "Mother" e "Working Class Hero", mas também, não fazendo parte do álbum mas editada pouco depois a canção "Power To The People". Rivalizava no meu gosto com "All Things Must Pass" do também ex-Beatles George Harrison.
De um disco religioso e muito triste, ouçamos "Mother".
mundo da canção nº 5 de Abril de 1970 Em 1970, John Lennon encontrava-se no auge da sua popularidade. Pese a polémica ligação, e o respectivo casamento em 69, com Yoko Ono, que muitos apontaram e não perdoaram como a causadora do fim dos The Beatles, John Lennon mostrava-se bastante criativo.
No ano anterior para além das últimas gravações com The Beatles para o LP "Abbey Road" tinham sido publicados, sob o nome da banda entretanto criada, a Plastic Ono Band, 2 Singles, o sucesso pacifista que foi "Give Peace a Chance" e "Cold Turkey". Antes do final do ano ainda a gravação ao vivo do concerto do Festival de Toronto "Live Peace In Toronto 1969".
O primeiro trabalho de 1970 foi a gravação do Single "Instant Karma!", cuja letra a revista "mundo da canção" publicava em Abril desse ano.
Não teve a receptividade de "Give Peace a Chance" mas teve uma notoriedade incomparavelmente superior à estranha "Cold Turkey". Agora, o prazer de recordar John Lennon nos bons tempos da Plastic Ono Band, é "Instant Karma!".
“O Roque e a amiga” era um dos segmentos que compunha o saudoso programa “pão com manteiga”.
Textos escritos por Bernardo Brito e Cunha e lidos pelo Carlos Cruz, fiquemos com mais um: “Roque meteu a chave à porta e, ouvindo acordes de um tango, franziu o sobrolho, interrogativo. A amiga, aparecendo à porta da cozinha secando uma última lágrima, deu de caras com Roque que, sorrindo, lhe oferecia um ramo de cravos. Vendo-a descomposta, Roque perguntou, apaziguador: - Mas então o que é isso? A mãe surgiu por trás da amiga, protectora. Roque avançou rápido, beijou-a prodigamente e perguntou afável: - Então, minha querida sogra, por cá? - Não me beije – deitou-lhe a sogra, tarde demais. – Você é um monstro! - Eu? – Surpreendeu-se Roque, voltando-se, inocente, para a amiga. - É, Roque – a amiga hesitou. – Sabe… você às vezes excede um bocadinho a minha escala… Roque abraçou-a pela cintura e perguntou, quase meigo: - Não é por causa da americana, pois não? A amiga sorriu ao de leve. - Não Roque – e acrescentou: – Estou tão contente por você ter voltado! A amiga beijou-o longamente e a mãe insurgiu-se: - Mas então… tanto barulho para nada? A amiga voltou-se para a mãe e, piscando-lhe o olho, murmurou: - É que o Roque mãe… O Roque é diferente: o Roque é outra música.”
E ouve-se “Rip It Up” de John Lennon.
“Rip It Up” é uma canção, de 1956, de Little Richard, aqui integrada no meddley “Rip It Up/Ready Teddy” e interpretado por John Lennon. Faz parte do álbum “Rock’n’Roll” de 1975.
A música Folk começou a década de 60 de forma acústica, com Pete Seeger, Joan Baez, Judy Collins, Bob Dylan, Peter Paul and Mary, transformou-se e terminou a década de forma eléctrica com o Folk-Rock de Bob Dylan, Fairport Convention, Pentangle, Steeleye Span, Crosby, Stills and Nash. A evolução técnica e musical foi enorme.
Pelo meio oportunidade para um nome meio obscuro da cena Folk Novaiorquina da 2ª metade dos anos 60: David Peel, ou David Peel and The Lower East Side.
Rolf-Ulrich Kaiser descreve assim uma tarde de Domingo (presumo que em 1968) no bairro East Village de Nova Iorque onde decorre um espectáculo do coro Up With People: "... Todo esse espectáculo conscientemente preparado, só tem um senão: ninguém ouve as suas melodias. O público prefere ouvir um pequeno grupo que, a escassos metros dali, entoa canções contestatárias. David Peel trouxera consigo esse grupo, amigos e amigas despenteados e cobertos de roupas andrajosas. Jovens sem lugar, sem pais. Jovens desordenados, como dizem os bons burgueses. Estes jovens, sentados à volta de David Peel, fazem a sua música. À sua maneira, produzem sons, ruídos, com pancadas em garrafas, em tubos de metal, etc.. São cerca de trinta e acompanham, constantemente o cantor popular David Peel. Foi com esta gente, diante da qual se erguem microfones, que David fundou o Lower East Side."
E mais adiante citando um artigo da revista Others Scenes sobre o grupo de David Peel: "Este grupo está presente em qualquer acontecimento local, seja grande ou pequeno, grátis ou remunerado cantam com a confiança de quem consegue expressar os sentimentos daqueles que, naquele momento, os escutam."
E conclui: "Aqui renasce o cenário do folk."
Em 1968 grava o primeiro álbum "Have a Marijuana" gravado ao vivo nas ruas de Nova Iorque. "The American Revolution" e "The Pope Smokes Dope" foram os LP que se seguiram. Este último editado em 1972 foi produzido por John Lennon e Yoko Ono e é dele o tema "Hippie from New York City" que no vídeo pode ser visto com John Lennon e Yoko Ono a integrarem o grupo num estilo muito Skiffle.
Numa cena muito rude, um folk em estado bruto poder-se-ia dizer protopunk, David Peel e a sua The Lower East Side é agora recordado com o seu "I Like Marijuana", estávamos nos anos 60, concretamente em 1968.
David Peel and The Lower East Side - I Like Marijuana
Há 45 anos, The Beatles aproximavam-se a passos largos do fim. No Verão de 1969 gravaram o último álbum, por sinal o excelente "Abbey Road". A influência de Yoko Ono sobre John Lennon acentuava-se, torna-se presença assídua nos estúdios de gravação, muitos acusam-na de ser a principal causa do fim dos The Beatles.
Depois das experiências vanguardistas:
"Unfinished Music Nº1: Two Virgin" (1968),
"Unfinished Music Nº2 - Life With Lions" (1969),
"Wedding Album" (1969)
Lennon e Yoko formam em 1969 a Plastic Ono Band e aparecem ao vivo no Rock'n'Roll Revival Festival de Toronto. Estão presentes os heróis da juventude de John Lennon: Bo Diddley, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Little Richard. Yoko Ono é apresentada ao mundo da música.
A primeira gravação do grupo é a conhecida "Give Peace a Chance" que interpretaram no referido Festival a 13 de Setembro de 1969.
(reconhecer Eric Clapton, nesta altura, também nos amigos da Plastic Ono Band)
"Give Peace a Chance" seria o primeiro "Single" gravado por um dos elementos dos The Beatles, com a banda ainda no activo. A ideia surgiu no "Bed-In" de lua-de-mel de Lennon e Yoko quando à pergunta de um jornalista sobre o que é que ele pretendia com aquela representação, ele respondeu: "All we are saying is give peace a chance". Assim seja!
A gravação de "Give Peace a Chance" foi efectuada num quarto de Montreal na presença de dezenas de jornalistas e personalidade do movimento hippie de então (Timothy Leary e Allen Ginsberg entre eles).