quarta-feira, 17 de julho de 2019

Quincy Jones - Bridge Over Troubled Water

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971


No livro "Os Grandes Criadores de Jazz" o nome de Quincy Jones é por várias vezes referido: como orquestrador de Frank Sinatra no texto "Dos Crooners aos virtuosos" e de Aretha Franklin em "As vozes sagradas", no texto "Do funk ao rap" a certa altura ele é mencionado a propósito dos sucessos mundiais de Michael Jackson "Off The Wall" e "Thriller" que "...popularizam o funk sob uma forma muito sofisticada pelas orquestrações nervosas e coloridas de Quincy Jones, verdadeiro demiurgo de um jazz-funk que ele prefigurou dez anos mais cedo."
É ainda referido no texto sobre Toots Thielemans quando este "...começa a colaborar com Quincy Jones, de quem se torna o solista favorito...", e em "Big bands bop...", onde ficamos a saber que "sob a direcção musical de Quincy Jones" a orquestra de Dizzy Gillespie efectuou digressão em 1956, 1957 ao Médio Oriente e América do Sul. Finalmente na caixa no final do texto ""Quando se compõe, tudo se arranja..." Quincy Jones é indicado como um dos grandes «criadores» como produtor e é a seguinte a descrição:
"Quincy Jones (1933), trompetista, é, seguramente, o mais mais célebre dos arranjadores e dos produtores provenientes do Jazz. Começou nas big bands de Hampton e de Gillespie, antes de se instalar em Paris no final dos anos 50. Aluno de Nadia Boulanger, arranjador principal da Barclay, orquestrou o primeiro disco dos «Double Six» de Mimi Perrin (1959). Director musical dos discos Mercury, escreveu para Sarah Vaughan, Billy Eckstine, Sinatra, Basie, Ray Charles. Amigo íntimo deste último, desliza progressivamente, tal como ele, do jazz para a soul music: o seu nome torna-se uma garantia de sucesso nas capas dos discos, logo abaixo dos de Roberta Flack, Aretha Franklin, Al Jarreau e, sobretudo de Michael Jackson, de quem se torna mentor. O seu nome depressa simboliza essa revolução tranquila que muda profundamente o destino da música popular: a electrónica submete o acústico, o estúdio adquire primazia sobre a orquestra e o trabalho do arranjador confunde-se cada vez mais com o do produtor - confusão que faz aliás toda a originalidade dos seus próprios álbuns, obras de gastrónomo amorosamente preparadas à base de ingredientes que vão do gospel mais puro às «violinadas» mais ornamentadas..."


Agora sim o artigo que vinha no nº 2 do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" em Fevereiro de 1971, na página dedicada ao Jazz, "Para Quincy Jones o Jazz é um estilo de vida"






À data, o álbum mais recente de Quincy Jones era "Gula Matari", do ano anterior, que começava com esta versão de "Bridge Over Troubled Water".




Quincy Jones - Bridge Over Troubled Water

terça-feira, 16 de julho de 2019

Bee Gees - Morning of My Life

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971


A página 5 do nº 2 do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" que estou a recordar era composta por 2 artigos "4 Conjuntos 3 Decepções" e "Bee Gees: Um caso espantoso de imaginação criadora".
No primeiro refere-se alguns concertos de música Pop-Rock que então começavam a despontar em Portugal, a desilusão dos Mungo Jerry (grande sucesso no ano anterior com "In the Summertime", de Paul Brett Sage, na primeira parte dos Mungo Jerry e ainda The Foundations já por mim recordados nas canções "Baby, I Coudn't See" e "In The Bad Bad Old Day". A surpresa ia para um agrupamento de nome Explosion II dos quais não consegui qualquer informação, alguém a tem?

O segundo artigo dá azo a mais uma recordação para os Bee Gees.




"O que é que Barbara Streisand e Elvis Presley têm de comum com Sérgio Mendes, Tom Jones, Brenda Lee, Frank Sinatra, Vicki Carr, Janis Joplin e Engelbert Humperdink.? Não sabem? Pois a resposta é simples: Bee Gees.", assim começava este artigo.

A gozar, nesta altura, de muito prestígio, ficamos a saber que os Bee Gees tinham à data composto mais de 1500 canções algumas das quais objecto de inúmeras versões, como "Words", "To Love Somebody" (ambas já aqui recordadas) e "Morning of My Life", esta última escrita em 1965 por Barry Gibb como "In the Morning".

A nova versão que ficou conhecida como "Morning of My Life" e fazia parte da banda sonora do filme "Melody" tendo sido publicada em 1971.




Bee Gees - Morning of My Life

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Joe Cocker - The Letter

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971

Tenho boas memórias de quando descobri Joe Cocker e conheci os seus primeiros registos. Interpretações como as de "With a Little Help from My Friends", "She Came in Through the Bathroom Window" e "Something" (todas dos The Beatles) não mais se esquecem, mas também "Feelin' Alright" dos Traffic ou ainda "The Letter" que tanto apreciava.

"Joe Cocker - O branco que canta com a voz de um negro" era o título do artigo que era publicado no nº 2 do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" de Fevereiro de 1971 e que começava assim:
"Joe Cocker tem a voz de um negro cantor de «blues» de meia idade. Mas porque é branco, está classificado na categoria dos cantores de «rock and roll». Para muitos, é mesmo o melhor cantor de «rock'n roll» desde Elvis Presley".







Depois ficávamos a saber o percurso deste cantor inglês, falecido em 2014, até ao 3º álbum, o duplo ao vivo "Mad Dogs & Englishmen", para mim, o melhor trabalho que nos deixou. Sucesso em 1967 pelo grupo The Box Tops, "The Letter", na versão de Joe Cocker e pertencente a este álbum, terá sido aquela que, na época, mais me impressionou e fiquei rendido a Joe Cocker.




Joe Cocker - The Letter

domingo, 14 de julho de 2019

Emerson, Lake and Palmer - Take a Pebble

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971

Para além de uma pequena caixa referente a Edwin Hawkins e da outra relativa à falta de salas para os Led Zeppelin e Ten Years After, tendo esta última motivo para o Regresso ao Passado de ontem, os dois principais artigos da página 4 do nº 2 do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" iam para os Emerson, Lake & Palmer e para Joe Cocker.

O texto relativo aos Emerson, Lake & Palmer dá-nos a conhecer o processo da formação deste célebre trio do Rock mais progressivo dos anos 70.
Keith Emerson porque achava que The Nice tinha alcançado o seu limite, Greg Lake desejava sair dos King Crimson. Os dois conheceram-se quando os respectivos grupos actuaram em S. Francisco em Dezembro de 1969, teclas, voz e guitarras estava resolvido, faltava um baterista. Carl Palmer dos Atomic Rooster é então convidado e, após resistência inicial, acaba por ceder e completar o grupo que ficou conhecido pelos seus nomes, Emerson, Lake & Palmer.




Tornam-se conhecidos, mesmo antes da edição do primeiro LP, através da actuação, em Agosto de 1970, no famoso Festival da ilha de Wight. O LP surge no final do ano. "Emerson, Lake & Palmer" é o disco que eu sempre mais apreciei da discografia deste grupo cuja primeira fase terminaria no final da década de 70.
"Take a Pebble" estava entre as minhas preferidas.




Emerson, Lake and Palmer - Take a  Pebble

sábado, 13 de julho de 2019

Led Zeppelin - Gallows Pope

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971


Tanto quanto consegui apurar os Led Zeppelin actuaram no Royal Albert Hall duas vezes, a 29 de Junho de 1969 e 9 de Janeiro de 1970. Em pequena notícia do jornal "DISCO MÚSICA & MODA" ,no seu nº 2 de Fevereiro de 1971, referia-se que estava "comprometida a apresentação dos Led Zeppelin no Royal Albert Hall", o que pelos vistos não se concretizou.
O motivo seria os "desmandos por parte do público" em actuações anteriores, cuja realidade era extensiva aos Ten Years After.







Se os distúrbios eram uma realidade, penso que também a necessidade de arranjar espaços cada vez maiores face à crescente popularidade de diversos grupos também o era, e, rapidamente, os estádios de futebol passaram a ser o palco para actuação de grupos de que os Led Zeppelin eram um bom exemplo.

À data os Led Zeppelin tinham 3 álbuns publicados, o último dos quais, "Led Zeppelin III", tinha surgido no final do ano anterior e gozava então de forte reconhecimento por parte da crítica e do público. É ainda hoje o meu disco preferido dos Led Zeppelin, menos Hard que os anteriores, mais eclético e diversificado com influências Folk, era um disco bastante original.

Escolho "Gallows Pole", um tradicional, que já lembrei na versão de 1939 de Lead Belly agora na versão moderna dos Led Zeppelin.




Led Zeppelin - Gallows Pope

sexta-feira, 12 de julho de 2019

The Equals - Black Skin Blues Eyed Boys

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971


Ainda na página 2 referência ao artigo sobre o grupo britânico The Equals intitulado "Equals: «As Apatias Também se Curam».

Conhecidos como sendo dos primeiros grupos inter-raciais britânicos o que se estendia não só à sonoridade do grupo como às letras das canções, por exemplo a canção de hoje com a designação "Black Skin Blues Eyed Boys", o sucesso dos The Equals decorreu de 1966 a 1970. Neste artigo Eddie Grant, líder do grupo, manifestava a intenção de um abordagem menos comercial e afirmava:
"Não nos interessa vender discos menosprezando a qualidade, até porque sentimos, cada vez mais, a urgência de criar uma comunidade racial entre brancos e negros.»
O tema de hoje persegue essa intenção o que é explicado no referido artigo.








The Equals serão sempre recordados pelo sucesso da canção "Baby Come Back" do ano de 1968, êxito que não foi mais igualado. Menos comercial, mais interessante, com um ritmo Funk que então se desenvolvia, segue "Black Skin Blues Eyed Boys" para recordar bailes de casa (garagem) de outros tempos.




The Equals - Black Skin Blues Eyed Boys

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Tremeloes - Me and My Life

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971

Na 2ª página do jornal encontrava-se o habitual "Top 20" com os vinte Singles e os dez álbuns mais vendidos em Portugal e ainda o Top 10 de Singles na Grã-Bretanha e EUA.
Dê-se uma olhadela e note-se a qualidade genérica dos álbuns onde José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Padre Fanhais ocupavam lugar. Nos Singles, à semelhança da Grã-Bretanha, "My Sweet Lord" de George Harrison ocupava o primeiro lugar, logo seguido pelo Paulo de Carvalho com o seu "Walk On the Grass". Já recordei os dois, por isso hoje vou para o 3º lugar ocupado pelos The Tremeloes e o êxito que foi "Me and My Life".





The Tremeloes, grupo Pop dos anos 60, inesquecíveis pelo sucesso que tiveram em 1967 com "Silence Is Golden", tiveram em "Me and My Life" a última canção a chegar aos Top 10. Pessoalmente não mais ouvi falar do grupo pese terem continuado com gravações nos anos 70 e 80.

"Me and My Life", cujo início me faz recordar o início do programa de rádio "Página Um" ou seja a música "Page One" dos portuenses Pop Five Music Incorporated. Lembro-me muito bem dela, foi o último êxito do grupo.




Tremeloes - Me and My Life

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Duarte Mendes - Adolescente

DISCO MÚSICA & MODA, nº 2 de Fevereiro de 1971


15 de Fevereiro de 1971, é a data da publicação do 2º número do jornal "DISCO MÚSICA & MODA". Periodicidade quinzenal era obra naquele tempo, mas mostra bem a apetência que começava a existir na juventude portuguesa no consumo de jornais com informação sobre a música popular de então e, neste caso, também nas tendências da moda.

Começo hoje a recordação deste nº 2 começando pela capa onde o destaque maior ia para o VIII Grande Prémio TV da Canção que tinha sido ganho pela Tonicha com a canção "Menina", destaque ainda para os Bee Gees "O Conjunto mais produtivo depois dos Beatles", para uma entrevista com a Mary Hopkin e também para a entrevista ao conhecido jornalista João Paulo Guerra sob o título "Tudo o que é chato é reaccionário".



O símbolo do "Zip-Zip" e depois da respectiva editora fonográfica congratulava-se, na página 11, com a vitória no Festival ...





e a "Philips", na página 16, agradecia aos autores e intérpretes de "Cavalo à Solta" e "Adolescente" pelas suas prestações no mesmo Festival.




A secção da moda destaca a morte de Coco Chanel e a moda vinda de Londres.




Musicalmente começo com Duarte Mendes a "Maior Surpresa" de acordo com as escolhas feitas pelo jornal, ler artigo "A Nossa Votação".




Duarte Mendes - Adolescente

terça-feira, 9 de julho de 2019

Edmundo Falé - Born On The Riverside

Nasceu no Porto, mas é em Lisboa que vai ser um dos fundadores do conjunto Ié-Ié Ekos, passa ainda pelo Conjunto Mistério e Sindicato e, recorda em “Bibliografia do Ié-Ié”:
“Foi nesta banda, no Sindicato, que, juntamente com Jorge Palma, Vítor Mamede, Júlio Gomes, Rão Kyao, Luís Pereira e outros, vivi um dos momentos mais altos da minha carreira, a participação no Festival de Vilar de Mouros então denominado o «Woodstock Português»”.

Era o Edmundo Falé, que já aqui evoquei na canção “Big Brother Joe” e "Estou Tão Só". Não chegou a gravar em nenhum dos conjuntos por onde passou, só a solo é que nos deixou registos daquela época. Depois de em 1965 ter gravado o 1º EP, por sinal fraco, é já na década de 70 que volta às gravações pela mão do José Cid. Naquela fase do José Cid de “gravar tudo com toda a gente” (José Cheta, Tonicha, José Jorge Letria, Simone, Mini-Pop, Frei Hermano da Câmara, etc.) surgem, em 1972, os dois Singles de Edmundo Falé.





Depois de “Big Brother Joe”, mas menos bem conseguida, foi a vez de “Born On The Riverside”. Com arranjos e direcção musical do Quarteto 1111 segue a canção “Born On The Riverside”, autoria do José Cid, interpretação de Edmundo Falé.




Edmundo Falé - Born On The Riverside

segunda-feira, 8 de julho de 2019

António Macedo - Baila, Baila, Rapariga

“António Macedo nasceu em Massarelos, Porto, a 26 de Fevereiro de 1946.
Faleceu na mesma cidade em 14 de Junho de 1999. Autor, intérprete e compositor, muito activo como cantor de intervenção durante os anos 70, mas sobretudo antes da revolução. António Macedo rapidamente se desiludiu. Autodidacta, acompanhava-se a si próprio à viola. Cantautor, por excelência, protagonizou uma das canções mais emblemáticas do canto de intervenção Erguer a voz e cantar, que ficou conhecida como “Canta, Amigo, Canta”. Passou a infância entre o Porto e Braga e em meados de 60 veio para Lisboa onde se licenciou em Germânicas.” - Em “Canto de Intervenção 1960-1974” de Eduardo M. Raposo.

Deixou uma discografia curta, um EP e cinco Single, mas muito interessante. Lembrando-me bem de ouvir algumas das canções na rádio, em concreto no programa da Rádio Renascença "Página Um".

Na contra-capa do Single que continha “O Casamento da Menina Manuela” lia-se:
"O principal valor de uso das canções de António Macedo será talvez o seu poder de intervenção no quotidiano: a possibilidade da sua presença na ausência de toda a encenação espectacular, num local sem privilégio ou uma hora sem data.
O que caracteriza as suas canções é a utilização dos signos mais comuns de um quotidiano que todos conhecemos bem demais, na produção de um sentido contrário ao do sistema (dominante). Trat-se de fazer da canção uma fala (mais do que uma escrita) de ruptura.
Esta é uma forma das diferenças fundamentais entre a canção e o poema ( em sentido estrito) podemos encontrá-la explorando a fundo as suas virtualidades numa canção como «o Casamento da menina Manuela». Quem o oiça compreenderá melhor como pode ser um começo de festa até o desmascarar dos negócios que se escondem as aparências dela.", assina Miguel Serras Pereira.





Do mesmo Single de “O Casamento da Menina Manuela” , estávamos no ano de 1972, segue a canção “”Baila, Baila, Rapariga”. Aqui fica mais uma bela recordação de António Macedo.




António Macedo - Baila, Baila, Rapariga

domingo, 7 de julho de 2019

Tino Flores - Viva a Liberdade

Em 1973 encontrava-me em Coimbra na Faculdade de Ciências e as evidências de
perseguição e censura eram bem maiores do que na minha terra natal, Ovar. De facto no nosso país não só na política mas em todas as áreas de actividade, o cinema e a música não eram excepção, a repressão fazia-se sentir.
Muitos filmes eram censurados com cortes ou então simplesmente por cá não passavam. Foi, por exemplo, o caso de “O Couraçado de Potenkim” do cineasta Serguei Einsenstein, o qual tive oportunidade de ver em sessões clandestinas organizadas, em Coimbra, pelo José Lamego (ex-deputado do PS, então militante do MRPP).
Na música são múltiplos os exemplos que se podem dar da censura praticada a múltiplos músicos proibidos de exercer a sua actividade de forma totalmente livre. Mas, genericamente, lá se ia conseguindo ouvir, entre outros, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho ou José Mário Branco; Tino Flores era de todo impossível de ouvir na rádio.






Os EP “Viva a Revolução” (1971) (encontrava-se a 50€ na internet), “Organizado o Povo é Invencível” (1972) e "O Povo em Armas Esmagará a Burguesia" circulavam secretamente, em Coimbra, de mão em mão. Tudo isto foi há mais de 45 anos. Para recordação aqui vai, de 1973, “Viva a Liberdade” que consegui recuperar algures na net.




Tino Flores - Viva a Liberdade

sábado, 6 de julho de 2019

José Cid - Todas Las Aves do Mundo

José Cid teima em não deixar definitivamente a música, continuando regularmente a animar festas e a encher Coliseus.
José Cid representa, actualmente, o que há de mais popularucho na música popular portuguesa, está ao nível de um Tony Carreira ou outros do mesmo género. Na realidade, o período mais relevante que teve foi de 1967 a 1970 com o Quarteto 1111 e a bela balada “A lenda de El-Rei D. Sebastião” ou o excelente “João Nada”. Aí sim teve um importante papel no surgimento na nova música portuguesa então em desenvolvimento. Com o fim do Quarteto 1111 a sua carreira pautou-se progressivamente pela mediocridade, sendo grande o rol de canções que o atestam: “Uma rosa que te dei”, “Ontem, hoje e amanhã”, “Na cabana junto à praia”, “Como o macaco gosta da banana”, etc., etc., etc.
E o curioso é ele julgar-se o dinossauro do Rock português comparando-se ao francês Johnny Halliday, ele que afirmava em 2007 na Semana Académica do Algarve: “Não me mandem cuecas para o palco, eu não sou o Tony Carreira”. Eis algumas frases dele que atestam o seu nível actual: “Se Elton John tivesse nascido na Chamusca, não teria tido tanto êxito como eu.” “Se o Rui Veloso é o pai do Rock português, eu sou a mãe.” “Gostava que não reparassem só no mau (…). De qualquer forma, o meu pior é muito melhor do que o melhor do Tony Carreira.” (frases retiradas da Wikipédia).
Está tudo dito. Mas, sublinho novamente, José Cid não navegou somente por estas águas estagnadas. Quer ao nível da composição, não esquecer que foi a única excepção feita pelo excelente programa de rádio ”Em Órbita” nos anos 60, ao passar no crivo da exigente escolha musical, um tema de música portuguesa, precisamente “A lenda de El-Rei D. Sebastião”, quer na posição crítica que tinha em relação à situação musical portuguesa e anglo-saxónica dominante nessa época. Veja-se o que ele próprio escrevia no nº 13 da revista “mundo da canção” de Dezembro de 1970 intitulado “Pop em Portugal”:
“Tive sinceramente pena ao saber da dissolução da Filarmónica Fraude. (…) A colaboração que deram ao último LP de Fausto – O MAIOR – entre os “mais” da jovem música portuguesa é prova de sobejo do espírito criador dos seus elementos.”
Relativamente ao projecto que então previa a passagem de 75% de música portuguesa na rádio dizia:
“Acho preferível para a formação musical do povo português ouvir Simon & Garfunkel, Donovan, Chicago, James Taylor do que cantores de ópera falhados «made Parque Mayer» que infestam as frequências de alguns programas de rádio, dos emissores mais castiços
Quanto ao fim dos The Beatles:
“Os Beatles também há algum tempo brincavam com o mau gosto como por exemplo em «Ballad to John and Yoko e Obladi oblada» embora o seu último trabalho LP «Let it be» seja das suas melhores obras. No entanto os tempos de Yesterday, Here, There and Everywhere, e Sargent Pepper´s iam longe e alguns conjuntos como Led Zeppelin, Cream, Blood Sweat and Tears, Chicago, Creedence Clearwater Revival e Crosby, Stills, Nash & Young, menos artificiais, e actuando ao vivo vinham a ganhar terreno na consciência dos que se interessam por «estas coisas» da Pop Music.”
E ainda:
“Os Cream constituíram o melhor trio até hoje conseguido na Pop Music.”

Não podia estar mais de acordo! Mas, qualquer semelhança com o José Cid actual..., cada um que tire as suas conclusões.





Em 1971 devia ter simplesmente mudado de vida. E é de 1971 que recupero, do EP “História Verdadeira de Natal”, ainda um tema, é “Todas las Aves do Mundo”.




José Cid - Todas Las Aves do Mundo

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Beatniks - Back In Town

Os primeiros anos da década de 70 vão alterar significativamente o panorama musical português. Portugal atrasado, analfabeto e isolado internacionalmente manifestava-se impotente no impedimento da proliferação das novas sonoridades que andavam no ar. Na música popular portuguesa os anos de 71/72 foram magníficos com evidências como o José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira e José Jorge Letria. Até no Jazz o cenário alterou-se significativamente, o 1º Festival de Jazz de Cascais em 1971 e o surgimento de alguns grupos nacionais como os Contacto, os Anar Jazz Group (de Jorge Lima Barreto), os Status e os The Bridge (de Jean Sarbib) são comprovativos.

O Rock teve no Festival de Vilar de Mouros de 1971 o seu ponto alto, os conjuntos proliferavam, Pop Five Music Incorporated, Psico, Sindicato, Pentágono, Beatniks são bons exemplos.

Dos Beatniks pioneiros do Hard-Rock em Portugal já recordei “Cristine Goes To Town” e "Sing It Along". E ficou então quase tudo dito. Recordemos que era já a segunda formação do grupo e que, para além daquele EP, só tiveram tempo de gravar um Single em 1972 e que é a recordação para hoje. As duas composições do Single são originais de nome “Money” e “Back In Town” e transpiram influências dos Uriah Heep, Grand Frank Railroad e Black Sabbath por todos os poros.
Quanto a “Money” pode-se ouvir no Youtube:





Já “Back in Town” segue em anexo.


Alguns dos elementos do conjunto vão para a Bélgica em fuga ao serviço militar obrigatório, Rui Pipas passa a integrar os Albatroz, era um novo fim para os Beatniks. Renasceriam, após 25 de Abril, com nova formação e subsistiram (com diferentes formações) até ao início dos anos 80; por lá chegou a passar a Lena d’Água.

Com um riff pesado e monolítico, a lembrar os Black Sabbath, toca a ouvir “Back in Town”, o Hard-Rock português em 1972.




Beatniks - Back In Town

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tonicha - Poema da Auto Estrada

Regresso à música popular portuguesa dos primeiros anos da década de 70 para recordar algumas canções praticamente esquecidas.
Opções muito variadas, começo com a Tonicha.

Entre o popularucho de “Zumba na caneca”, passando pela bem conhecida canção “Menina” vencedora do Festival da Canção de 1971, até à colaboração nessa quase esquecida obra da música popular portuguesa que foi o LP “Fala do Homem Nascido”, decorria o ano de 1972, deparamo-nos com a Tonicha.
Como é fácil constatar, evidenciou ao longo da carreira diversas matizes musicais, mas, infelizmente, ficou sempre associada a músicas menores, muitas vezes próximo do nacional - cançonetismo e fica a pena de não ter sido mais atrevida noutras abordagens explorando as potencialidades vocais que possuía (fica também a tentativa de uma abordagem mais Pop com a colaboração do Quarteto 1111 no final dos anos 60, ou ainda em 1972 a interpretação de músicas de Patxi Andion).

Exemplo duma faceta pouco cultivada é a versão de “Oh Pastor que choras”, renomeada somente “Pastor”, e já aqui abordada no original do José Almada.


  


Mas melhor ainda está na participação no projecto colectivo que deu voz à poesia de António Gedeão no referido “Fala do Homem Nascido”. Recorda-se aqui “Poema da auto-estrada” na voz da Tonicha

Afirma a "Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX":
”Enquanto intérprete saliente-se a capacidade de adaptação a vários estilos musicais, além de uma clareza e cuidado na interpretação do texto”. Ou seja do melhor ao pior, ou como se poderia ter ganho uma bela cantora.




Tonicha - Poema da Auto Estrada

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Talking Heads - Fear of Music

Passagem por 20 álbuns ímpares da década de 70


Por fim um álbum de uma das últimas grandes bandas que o Rock conheceu: "Fear of  Music" dos norte-americanos Talking Heads.

Cada década tem um conjunto de grandes bandas, a diminuírem de década para década, que se deram a conhecer e que se impuseram, muitas delas pela sua originalidade, a de 70, em particular, foi fértil nos novos grupos que surgiram e que foram de tal maneira importantes que ainda hoje se mantêm como referências e também  influenciadoras de muitas outras novas bandas.
Os Talking Heads encontram-se entre esse conjunto de grupos, então surgidos em plena cena Punk, mas, neste caso, não tendo nada a ver com ela e destacando-se rapidamente de todas encabeçando o que de melhor a então designada New Wave nos trazia.

Mistura eficiente de Rock e Funk, os Talking Heads tiveram em "Fear of Music" um das suas melhores concretizações envolvendo-nos em doses rítmicas irresistíveis e de muito bom gosto, ouça-se "I Zimbra" ou " Life During Wartime". Em contraponto, uma das melhores composições de sempre dos Talking Heads ia para a acalmia de "Heaven" que não resisto a deixá-la hoje para satisfação de todos os amantes dos Talking Heads.







Os Talking Heads eram um quarteto formado por:
David Byrne - voz principal e guitarra
Jerry Harrison - guitarra, teclados e voz
Tina Weymouth - baixo e voz
Chris Frantz - bateria






A 19 de Novembro de 1994 no Coliseu do Porto, tive o privilégio de assistir ao concerto de David Byrne a solo, já com 3 álbuns editados, e lembro-me bem que o tema que encerrou o concerto foi precisamente este "Heaven" com que hoje vos deixo.




Talking Heads - Heaven

terça-feira, 2 de julho de 2019

The Fall - Dragnet

Passagem por 20 álbuns ímpares da década de 70


Faltam dois discos para chegar ao total de vinte na escolha que efectuei referentes à década de 70. Verifico que nas escolhas efectuadas até aqui (a última foi "Low" de David Bowie do ano de 1977) não surge nenhuma referente ao movimento Punk que teve a sua expressão maior nos anos de 1976 e 1977. Nem sinal de Ramones, Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys, Buzzcoks e muitos outros grupos, principalmente de Inglaterra, que assaltaram o Rock moribundo na segunda metade dos anos 70. Na realidade, pese a sua importância, não deixaram gravações, para meu gosto, que fossem dignas de se inscrever no Top 20 daquela década. Não faziam o meu gosto, muita energia mas muito simplismo. Rapidamente se esgotaram como novidade e logo novas nuances se desenvolveram, com uma produção mais cuidada surgiu Ian Dury, Joe Jackson, Elvis Costello e bandas como The Fall em Inglaterra e Talking Heads nos Estados Unidos.
São para estes dois últimos que vão as escolhas que faltavam, hoje The Fall, amanhã Talking Heads.

The Fall é das poucas bandas do final dos anos 70 que recordo com satisfação. Por cá foram pouco divulgados, não fossem os textos do Miguel Esteves Cardoso e provavelmente não os teria descoberto a seu devido tempo. Escrevia ele no semanário "O Jornal" a 16 de Janeiro de 1981 em artigo intitulado "The Fall: os incorruptíveis contra o Rock", sendo o pretexto o 3º LP "Grotesque (Ater the Gramme":
"Os Fall são, no mundo do Rock, a Oposição."
"Não são uma banda atraente - a fachada é o interior e o interior não é mobilado. É nu. Os Fall são uma banda nua. Sem rodriguinhos e sem concessões. Sobretudo, os Fall são necessários."
"O Punk foi mais uma pose do que uma posição - os Fall nada têm a ver com ele. Mais do que isso, fazem lembrar essa antiguidade infelizmente obsoleta que é a canção de protesto. Sim a canção de protesto, lembram-se?
A música dos Fall é pouco mais do que uma locomotiva rítmica e rápida que parece prestes a descarrilar. Sobre esse fundo trepidante (des)equilibra-se a recitação convulsivamente histérica de Smith, proferindo cada palavra como se soubesse a ácido sulfúrico, atacando cada frase, mastigando e roendo, sempre insatisfeito ou zangado." 

Mark E. Smith (1957-2018) era o líder dos The Fall (1976-2018) com os quais deixou mais de 30 álbuns de estúdio, uma banda a (re)descobrir.


Edição do Reino Unido de 1979 com a ref: (SFLP 4); na capa etiqueta
da discoteca Jo-Jo's




Finalmente o disco escolhido é "Dragnet", o 2º do grupo, gravado e editado em 1979. A década despedia-se com The Fall e eu, hoje, deixo-vos com "Muzorewi's Daughter" a demonstrar a estranheza e simultâneamente a beleza da música nua e crua dos The Fall, pelo meio os gritos dilacerantes de Mark E. Smith.




The Fall - Muzorewi's Daughter

segunda-feira, 1 de julho de 2019

David Bowie – Low

Passagem por 20 álbuns ímpares da década de 70

Não é só Joni Mitchell que tem direito a passagem dupla nesta escolha de 20 álbuns da década de 70, em relação a David Bowie também me vieram logo à memória dois LP que muito apreciei (e aprecio), foram "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" (1972), que já recordei e "Low" decorria o ano de 1977.

"Low" é o primeiro de três álbuns que constituíram a "trilogia de Berlim" (na realidade "Low"começou a ser gravado nos EUA, continuado em França e terminado em Berlim), os outros foram "Heroes" (1977) e "Lodger" (1978) e tiveram a colaboração de Brian Eno e Toni Visconti. Depois das personagens "Ziggy Stardust" e "Thin White Duke" e da experiência em drogas, David Bowie "refugia-se" em Berlim, onde podia passar despercebido, e desenvolve os seus diversificados caminhos musicais por novos terrenos a fazerem parte do Rock Experimental.






"Low" é um álbum extremamente influenciado por Brian Eno, em particular o lado B, em "David Bowie - Três décadas de metamorfoses" lê-se: "A crítica não sabia o que dizer do lado B de Low. Gelado, matemático, Low é acima de tudo a utilização do veículo rock para a divulgação popular da avant-garde musical europeia, o que não parecia preocupar Bowie, indiferente às reacções e consequências já visíveis."
"Low" não alcançaria grande êxito e as vendas foram reduzidas, o reconhecimento viria anos mais tarde.

A abrir o lado B estava "Warszawa", um tema fundamentalmente instrumental escrito em parceria com Brian Eno.




David Bowie - Warszawa

domingo, 30 de junho de 2019

Joni Mitchell – Hejira

Passagem por 20 álbuns ímpares da década de 70

Pese os altos e baixos que a década de 70 teve, Joni Mitchell foi uma das poucas artistas que tal contrariou, mantendo ao longo de todo aquele período um nível qualitativo incomum. Oito trabalhos superlativos, obrigatórios para quem, como eu viveu, musicalmente, de uma forma intensa aqueles anos. Razão pelo qual me vejo obrigado a incluir, nesta selecção de vinte, mais um disco de Joni Mitchell, já tinha escolhido "Blue" de 1971, agora escolho "Hejira" de 1976.


Edição portuguesa de 1977 com as Ref: ASY 53053, 53053
Preço 580$00, menos de 3€




"Hejira" encontra Joni Mitchell em processo de aproximação ao Jazz, que iria prolongar-se até ao final da década, com a colaboração de nomes famosos do Jazz, neste álbum com Jaco Pastorius (1951-1987), proeminente baixista dos Weather Report.



"Hejira" é um ponto alto do encontro do Rock, do Folk e do Jazz de uma forma única e admirável. Não é um disco fácil e de assimilação rápida, vai crescendo com o tempo e ainda hoje é motivo de prolongados prazeres e descobertas. Ouça-se a faixa de abertura "Coyote", um bom exemplo da sofisticação que a música de Joni Mitchell alcançava, e depois tínhamos Jaco Pastorius no baixo...




Joni Mitchel - Coyote

sábado, 29 de junho de 2019

Bruce Springsteen – Born to Run

Passagem por 20 álbuns ímpares da década de 70

Encontra-se boa música no ano de 1975? Sim, claro, em qualquer ano isso é verdade, mas é um ano diferente é um ano menos bom. Em termos de grupos é manifesto o esgotamento que o ano tem, salvam-se os Roxy Music com "Siren" e pouco mais, é nos cantores em nome próprio, em particular nos que vêm da década anterior, que se encontra ainda  o melhor do ano, refiro-me a David Bowie, Joni Mitchell, Neil Young e Paul Simon. Entre as novidades da década o destaque vai directo para Bruce Springsteen, já com o seu 3º LP de originais, o monumento que é "Born to Run".


Edição portuguesa com a ref: 80959, etiqueta com preço: 730$00 com 15%
de desconto, ou seja pouco mais de 3€




Renascido das cinzas do Rock agonizante, Bruce Springsteen faz-nos acreditar na renovação do velho Rock e dá-nos um impressionante retrato da América das cidades, dos carros e das mulheres ao melhor estilo do escritor Jack Kerouac, o qual me veio logo à ideia.
Escolho o tema título, "Born to Run", uma pujante demonstração da qualidade que Bruce Springsteen evidenciou neste álbum. O seu melhor de sempre? Talvez, talvez.... note-se o saxofone de Clarence Clemons (1942-2011) , na capa com Bruce Springsteen, que dupla!!




Bruce Springsteen – Born to Run

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Milton Nascimento - Maria, Maria

"Clube da Esquina" (1972) e "Clube da Esquina 2" (1978) os dois duplos álbuns na sua origem  foram a base do concerto que Milton Nascimento deu ontem à noite no Coliseu do Porto.





Um belo concerto a recordar o melhor período da excelente carreira de Milton Nascimento. Muito debilitado fisicamente mas ainda a denunciar uma voz única e divina. "Cais", "Cravo e Canela", "Maria Maria", "Nada Será Como Antes", "San Vincente", "Dos Cruces", "Trem Azul" foram algumas das canções que nos deliciaram, tendo como ponto alto o dueto com a Carminho em "Cais".







Único senão o Coliseu só estava maio cheio, o que em parte se deverá dever ao custo elevado dos bilhetes. A Casa da Música teria sido melhor opção.

Recordo agora "Maria, Maria" do álbum "Clube da Esquina 2" decorria o ano de 1978.


Edição europeia em duplo CD, ref: 7243 8 32260 2 3





Milton Nascimento - Maria, Maria