Remonta a 1969 o ano em que comecei a comprar discos, ou
melhor, quando meu pai começou me a comprá-los.
Eu, com a minha lista de discos, mais o meu pai, lá íamos os
dois ao Porto, onde passávamos o dia, de discoteca em discoteca, em busca e
audição (no tempo em que se ouvia os discos ,em cabines insonorizadas, antes de
os comprar) dos discos que conseguíamos encontrar. Nessa época as gravações em
45 rpm já estavam em declínio em favor dos LP (Long Play) de 33 rpm, razão pela
qual foram poucos os discos Single ou EP-Extended Play de 45 rpm que então comprei.
Entre eles está o Single dos The Who “Summertime Blues”, edição portuguesa da
Philips, decorria o ano de 1970, que segundo o site http://www.7inchrecords.com vale 110€.
Descobrimos os The Who através da Ópera Rock “Tommy”, duplo
álbum de 1969, disco que nos tinha sido, emprestado por um primo afastado
que vivia (e vive) em Nova Iorque. Não encontrando essa obra maior que foi (é)
“Tommy”, nem o álbum “Live at Leeds” (ambos adquiridos mais tarde) donde tinha
sido extraído “Summertime Blues”, comprou-me então o meu pai este Single cuja capa
aqui reproduzo.
Eddie Cochran
(1938-1960), tinha 21 anos quando faleceu de acidente de automóvel, em Londres,
a 17 de Abril de 1960, no final da turné britânica. Está na lista dos
pioneiros do Rock’n’Roll (mais concretamente do Rockabilly – género de fusão
com o Country), a par de Elvis Presley, Carl Perkins, Bill Halley, Buddy Holly,
Gene Vincent, etc..
“…Eddie Cochran, que se impôs, a partir de
1957, como o melhor produto rock’n’roll de estúdio com Twenty Flight Rock.
Rival de Elvis Presley, de quem copiava o tom enfático nos tempos lentos,
assemelhava-se musical e tematicamente, nos ritmos rápidos, a Chuck Berry
(Summertime Blues, 1958; C’mon Everybody, Something Else, 1959). A estrutura da
sua música anunciava o rock’n’roll instrumental dos anos 60.”
assim é referido Eddie Cochran em “POPMUSIC-ROCK”
de Philippe Daufouy/Jean-Pierre Sarton
Deixou
influências dos The Rolling Stones aos The Sex Pistols que interpretaram
versões de originais de Eddie Cochran; entre as canções que compôs, uma das que
melhor perdurou no tempo foi “Summertime Blues”, da qual destacamos a versão
dos britânicos The Who no álbum “Live at Leeds” de 1970.
(Curiosidades:
-
“Three Steps to Heaven” editado em
Março de 1960 foi nº 1 no Reino Unido
após a sua morte.
- Nos primeiros a chegar à cena do acidente de
automóvel estava o polícia Dave Dee, mais tarde principal vocalista do grupo
pop/rock britânico Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, no acidente
seguiam, para além do taxista, Sharon Sheeley, cantora e namorada de Eddie
Cochran e Gene Vincent outro pioneiro do Rock’n’Roll.)
Já com
diversos Singles gravados, em 1958 é editado “Summertime Blues” que agora
recordamos.
Até à década
de 50 do século passado os Blues e o Rhythm’n’Blues, eram interpretados e
consumidos quase exclusivamente pela população negra norte-americana. Estes
ritmos eram gravados por companhias discográficas negras e os discos (Race
Records) por eles consumidos. Embora, grande parte do população branca dos EUA
não aceitasse o Rhythm’n’Blues dançante e “endiabrado”, este ia progressivamente
ganhando admiradores. Pese a sua suavização de forma a agradar a vastas camadas
da população branca, o Rock’n’Roll veio permitir ao mundo branco o acesso aos
ritmos acelerados do Rhythm’n’Blues.
É, portanto,
no mundo musical negro que vamos encontrar os percursores do Rock’n’Roll, destacando-se,
entre outros, Louis Jordan, Fats Domino, Chuck Berry, Little Richard e BoDiddley.
Bo Diddley
(1928-2008), guitarrista e cantor de Blues de Chicago foi, nos anos 50, um dos
pioneiros do Rock’n’Roll tendo influenciado, consideravelmente, muitos futuros
músicos de Rock.
Entre eles,
estavam The Doors, com fortes raízes no Rhythm’n’Blues, que recuperaram “Who do
you love?” de Bo Diddley. Aparece pela primeira vez em disco, no registo ao
vivo “Absolutely Live” em 1970.
Iniciado nas
gravações em 1955, no ano seguinte Bo Diddley grava o Single “Who do you love?”, uma das
suas mais populares e duradouras canções e é a minha proposta de audição.
A separação da música negra e branca, relação
directa com a segregação racial existente nos EUA, sofreu na década de 50 forte
alteração. Foi o advento do Rock’n’Roll.
As mudanças na sociedade americana com o fim
do maccarthismo, a progressiva penetração do Rhythm’n’Blues em sectores da
juventude branca e a sempre atenta indústria discográfica ao promover versões
de sucessos de Rhythm’n’Blues no mundo musical branco propiciaram o surgimento
do Rock’n’Roll.
É certo que as versões feitas por músicos
brancos de músicas originais negras fez-se com uma certa suavização desses
sucessos do universo negro. Veja-se a adaptação de “Tutti Frutti” de Little Richard por Pat Bonne ou “Ain’t It a Shame” de Fats Domino pelo mesmo (é
procurar no youtube e ver as diferenças), ou ainda, a escolha para hoje, a
versão de Bill Haley de “Shake, Rattle & Roll”, original de Joe Turner,
ambas do ano de 1954.
Bill Haley (1925-1981), o sucesso tardava,
quando em 1952 resolve abraçar o Rock’n’Roll e formaro conjunto Bill Haley & His Comets. Mas
só em 1954 conhece a popularidade ao fazer a versão “Shake, Rattle and Roll” que Joe Turner tinha gravado meses antes.
"Shake, Rattle and Roll” seria adulterada por
Bill Halley, mais conforme aos bons costumes, tendo também Joe Turner
posteriormente aderido à nova lírica.
Joe Turner
Bill Haley
Get outta
that bed
Wash your face and hands
Well, you get in that kitchen
Make some noise with the pots and pans
…
Get out from that kitchen
and rattle those pots and pans
Well, roll my breakfast 'cause I'm a hungry man
…
Way you wear those dresses
The sun comes shinin' through
I can't believe my eyes
All that mess belongs to you
…
Wearin' those dresses,
your hair done up so nice
You look so warm,
but your heart is cold as ice
…
I believe to the soul
You're the devil and now I know
…
I believe
you're doin'
me wrong and
now I know
…
Joe Turner (1911-1985), também conhecido por
Big Joe Turner ou ainda The Boss of Blues, com particular êxito nos anos 50, o
destaque maior vai para “Shake, Rattle
and Roll” gravado em Fevereiro de 1954. E é com o original, letra incluída, que
ficamos.
O Soul é uma forma de expressão musical negra nascida na década de 50 do
século XX com raízes no Gospel e Rhythm’n’Blues. Teve, no início, como
principais intérpretes Ray Charles, Aretha Franklin e James Brown.
James Brown (1933- 2006), é reconhecidamente
uma das figuras mais influentes na música negra do século XX. Foi determinante
na evolução do Gospel e Rhythm’n’Blues no Soul e no Funk (do qual foi o
principal inovador- “o funk deve-lhe tudo
e ele sabe-o” em “Os Grandes Criadores de Jazz” de Gérald Arnaud e Jacques
Chesnel), incorporando outras sonoridades que vão do Rock ao Reggae, do Jazz ao
Hip-Hop.
"A sua voz trémula e elástica, o seu falsete de fera ferida, fazem dele uma
espécie de anti-Ray Charles, incarnando uma alma tão dilacerada como
endurecida." em “Os Grandes Criadores de Jazz”.
Desde muito cedo, os seus espectáculos foram
de uma entrega total, cheio de Soul, e movimentação constante a deixar o
público em êxtase. Ora vejam James Brown, em 1964, a interpretar “Pleease,
Please, Please”
Citado como o Padrinho do Soul, o Inventor do
Funk , o Avô do Hip-Hop, deixou-nos uma longa discografia e canções que
marcaram várias gerações: “I Feel Good”, “It's a Man's Man's Man's World”, Hot
Pants”, “Sex Machine”, “Living in America”, "Papa's Got A Brand New Bag” são algumas delas.
Em 1956 gravou o primeiro single “Please,
Please, Please” atingindo o 6º lugar nas listas de Rhythm’n’Blues e é esta gravação
que fica para audição.
Agora que Patxi Andión está de regresso ao nosso país é um bom motivo
para o recordar.
Depois de o termos conhecido através do programa de televisão Zip-Zip em
1969, Patxi Andión realizou o primeiro concerto em Portugal a 24 de Março de
1974, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a um mês da revolução.
Depois do 25 de Abril, em pleno processo revolucionário, foram vários os
músicos espanhóis a terem cá particular sucesso, Patxi Andión, foi um deles. Recordo-me
de ter o prazer de o ouvir numa das festas “revolucionárias” no, já não
existente, Pavilhão Dramático de Cascais, algures na década de 70.
Provavelmente ouvi “El Maestro” do álbum "A Donde El Agua”, de 1973; bonito, no meio da revolução, ouvir uma
música como esta.
“Nos pasaran la cuenta”, “El Maestro”, “Canción para un niño en la
calle”, “Manuela” são algumas das suas grandes canções e que devem ser revisitadas
numa primeira oportunidade.
Agora vamos ao 2º álbum de Patxi Andión, “(11 Canciones Entre Parentesis)”, estávamos em 1971 e ouçamos “20
Aniversario (Palabras)”, faz parte da lista “já não se fazem canções assim”.
20 años de
estar juntos, esta tarde se han cumplido, para ti, flores, perfumes. Para mí.......! Algunos libros! No te he dicho grandes cosas porque, porque no me habrían salido. Ya sabes cosas de viejos! Requemor de no haber sido! Hace tiempo que intentamos abonar nuestro destino, tú bajabas la persiana, yo, yo apuraba mi último vino. Hoy, en esta noche fría, casi como ignorando el sabor de soledad compartida, quise hacerte una canción, para cantar despacito, como se duerme a los niños. Y... y ya ves, sólo palabras sobre notas me han salido, que al igual que tú y que yo, ni se importan, ni se estorban, se soportan amistosas, mas, mas no son.....no son una canción. Que helada que está esta casa! Será que está cerca el río! O es que entramos en invierno y están llegando......están llegando los fríos!
Hoje, inicia-se uma nova página de nome “Memorabilia”. Este
espaço será preenchido como o nome indica por “coisas que servem para serem
lembradas”, ou seja, será uma recolha de memórias que podem ir de bilhetes de
concertos a recortes de jornais, capas de discos, etc. Tudo o que se guarda ao longo
dos tempos, objectos ou simplesmente memórias, e nos remete para momentos passados de
significado particular.
Para começar, a memória mais recente, o bilhete do concerto
de ontem de Sérgio Godinho no Rivoli, no Porto. Liberdade, nome de uma canção, agora de um álbum também,
de um concerto, de uma comemoração: 40 anos de Liberdade.
Viemos com o peso do
passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Hoje à noite é dia de concerto de Sérgio Godinho no Rivoli, amanhã repete às 17H. A não perder!
Entretanto recuamos 40 anos e recordamos o Sérgio Godinho de então.
Um dos discos de
maior sucesso de Sérgio Godinho foi “À Queima Roupa” editado no ano de 1974.
Depois dos inovadores
“Sobreviventes” e “Pré-Histórias”, encontra-se já Sérgio Godinho no Canadá,
onde casou, entretanto, com a Shila, quando começa a gravar “À Queima Roupa”.
“À Queima Roupa” só seria concluído em Lisboa, já depois do 25 de Abril, claro,
e é com este álbum que vai granjear uma enorme popularidade. Para esse sucesso
contribuíram temas como “Liberdade”, “Ponto nos iis” e “Independência”, a alinharem com o contexto político que então
se vivia.
Pese o circunstancialismo em que “À Queima Roupa” foi gravado, com a
utilização de uma linguagem maioritariamente simples e directa, não há
propriamente uma concessão ao facilitismo, nem ao comercialismo (no mau
sentido) de que Sérgio Godinho esteve sempre distante.
Outros temas menos
imediatos são dignos de nota, “Tem Ratos”, “A minha Cachopa”, Coração e Raça” e
ainda “Assim Como Um Postal Para O Canadá”.
“À Queima Roupa” insere-se numa unidade estética já muito própria,
numa fusão letra/música muito peculiar que será uma constante na sua longa
discografia e que se prolonga, felizmente, até aos nossos dias.
A escolha fica em “Assim Como Um Postal Para O Canadá”, talvez a faixa
menos divulgada deste disco histórico de Sérgio Godinho:
Sérgio Godinho - Assim Como Um Postal Para O Canadá
Com produção de Adriano Correia de Oliveira e José
Niza, Fausto grava, em Madrid no ano de 1974, uma parte ainda antes do 25 de
Abril, o seu segundo álbum de originais com a designação “P’ró Que Der E Vier”.
Tem ainda a participação, entre outros, de José Afonso, Vitorino e Júlio
Pereira. O álbum é terminado em Lisboa após o 25 de Abril “P’ró Que Der E Vier”
e reflecte, claramente, o entusiasmo do período revolucionário então iniciado;
temas como "Venha Cá Sr. Burguês", “Marcolino”, "O Patrão E
Nós" a comprová-lo.
Com Fausto ainda em busca de uma sonoridade identitária, que o consagraria como
um dos maiores autores da nossa música popular, “P’ró Que Der E Vier” justifica
plenamente o destaque no controverso ano de 1974. Com letras que vão de
Alexande O’Neill, a Eugénio de Andrade e ao próprio nos temas atrás referidos e
ainda em “É Tão Díficil”.
Das canções mais ouvidas, e também editada em Single, "Venha Cá Sr.
Burguês" é a proposta que fica para audição.
Foi há 40 anos!
O panorama musical de Portugal no ano de 1974 foi
marcado por 4 discos, a saber:
- Sérgio Godinho – À Queima Roupa
- Fausto – P’ró Que Der E Vier
- Luís Cília – O Guerrilheiro (regravado em 1982 como “O Cancioneiro”)
- José Afonso – Coro Dos Tribunais (gravado em 1974, editado em Janeiro de 1975)
Comecemos pelo que ficou menos conhecido, Luís Cília e “O Guerrilheiro. Luís Cília foi sempre um caso à parte na música
popular portuguesa. Depois do inicial "Portugal-Angola: Chants de Lutte", dos 3 discos
"La Poésie Portugaise de nos jours et de toujours" e do excelente
“Contra a Ideia da Violência a Violência da Ideia” de 1973, Luís Cília
surpreende com “O Guerrilheiro”.
“O Guerrilheiro” é um disco com profundas
raízes no cancioneiro tradicional e dir-se-ia contra a corrente no ano em que
foi gravado.
No site www.luiscilia.com, no dizer do próprio:
Cheguei a 29 de Abril e, perante o sectarismo que se começou
a criar, dei uma entrevista em que dizia que considerava o Alfredo Marceneiro
um cantor revolucionário. É uma coisa que mantenho, mas que na altura até disse
como uma forma de provocação contra aqueles tipos que achavam que o fado era
fascista. De resto, um povo que durante 48 anos não tinha tido acesso a um
determinado tipo de música e que a seguir ao 25 de Abril apanhou com doses
industriais de uma reles música a que chamavam revolucionária onde 'pão' rimava
com 'patrão'... Depois havia uma inflação de 'revolucionários'. Este disco foi
então a minha reacção, como também o foi ter dado a mim mesmo como meta,
durante um ano, não cantar em Lisboa. Porque era em Lisboa que se dava o
folclore todo. Daí eu ter arranjado, desde essa altura, alguns inimigos.
Resolvi fazer este disco, que era em tudo contrário à corrente. Decidi fazer um
disco cultural, embora também tivesse a sua intervenção”.
É precisamente da canção “O Guerrilheiro” que a CGTP iria adaptar o seu
hino. Ficamos, no entanto, com uma canção mais pequena (“O Guerrilheiro” dura 10
m) e que sabe tão bem recordar, “D. Sancho”.
Os Blues estiveram na origem de boa parte dos géneros musicais que
se estabeleceram na segunda metade do século XX. De origem simples e rudimentar,
voz ou voz e viola, as “Work Songs” , os “Cries” e os “Hollers” eram a forma de
expressão da população negra escrava e explorada dos EUA. Dos Blues do início
do século XX até à década de 40 (dos Blues do Mississipi aos de Chicago) vai um
longo percurso. Os Blues iniciais deram origem ao Jazz, ao Rhythm’n’Blues, ao
Rock’n’Roll e diversas variantes.
T-Bone Walker (1910-1975) foi um músico de Blues, activo
musicalmente de meados dos anos 30 até aos anos 70 e é considerado “o patriarca
da guitarra eléctrica”. Dele disse BB King:
"Ele
tem uma forma estranha de segurar a guitarra, mantêm-na afastada em vez de a
deixar simplesmente repousar contra o estômago… e dir-se-ia que se limita a
arranhar ao longo das cordas com a palheta, nem sei mesmo como é que ele
consegue tocar na corda certa… e no entanto, que execução! Fiz tudo para
conseguir aquele som, consegui aproximar-me, mas nunca o atingi. T-Bone é o
primeiro guitarrista eléctrico de que alguma vez ouvi falar… e é o som mais
bonito que alguma vez ouvi em toda a minha vida” em "Os Grandes Criadores de Jazz” de Gérald Arnaud e Jacques Chesnel, Editora
Pergaminho, 1991.
Em 1947 grava o seu tema mais
conhecido “Call It Stormy Monday (But
Tuesday Is Just as Bad)”, ou simplesmente “Stormy Monday”, sendo, de então para cá,
objecto das mais variadas versões.
No concerto de 2005, no Royal Albert Hall, de regresso do super
trio de Rock os Cream (1966-1968) de Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce (falecido no passado dia 25)
interpretam “Stormy Monday”, eis:
Ainda do mesmo livro: “De Jeff Beck a Johnny Winter passando por
Chuck Berry e Jimi Hendrix, não há um que não o cite como referência absoluta
de uma coesão perfeita entre avoz e o
som eléctrico.”
Para terminar,
regressar a 1947 para ouvir “Call
It Stormy Monday (But Tuesday Is Just as Bad)” de T-Bone Walker.
T-Bone Walker - Call It Stormy Monday (But Tuesday Is Just as Bad)
O Blues adquiriu diversas formas de acordo com as migrações da
população negra norte-americana, ficando conhecidas com a designação da cidade
ou região onde se desenvolvia, Delta
Blues, Chicago Blues, Detroit Blues,
East Coast Blues, Texas Blues, Louisiana Blues, New Orleans Blues , etc..
O
Delta Blues era caracterizado por formas musicais rudimentares, ritmos irregulares e
expontâneos tendo a voz, suportada pela viola e/ou harmónica, como principal
instrumento. O urbanizado som de Chicago destacar-se-ia na cena musical e viria
a ter forte influência em muitos futuros grupos e músicos conectados com o
Rock, dos The Rolling Stones a Jimi Hendrix. A progressiva electrificação dos
instrumentos, ainda na década de 40, primeiro a guitarra eléctrica, depois a
bateria, o piano e o baixo, será
preponderante no Blues de Chicago e na sua influência no início do Rock’n’Roll.
Podemos mesmo afirmar que os Chicago Blues foram a maior influência na história
do Rock, com destaque, não só no início, como, em particular, nos anos 60 e 70.
“Muddy
Waters, depressa se tornou , após a sua chegada, em 1943, o mais popular dos
jovens bluesmen de Chicago. Este filho do Mississippi, discípulo de Robert
Johnson, é «lançado» por B. B. Broonzy que, imediatamente, reconheceu as
potencialidades deste guitarrista ácido, que utilizava como ninguém o
bottleneck* na guitarra eléctrica, reforçado por um cantor com um carisma
assombroso: a sua voz ardente e áspera é tão pouco «urbana» quanto possível num
contexto ultra-electrificado que prefigura, a partir dos anos 40, o melhor
aspecto do rock’n’roll. Em “Os Grandes Criadores deJazz” de Gérald
Arnaud e Jacques Chesnel, Editora Pergaminho, 1991.
(* gargalo de garrafa ou dedo metálico que
permite ao deslizar nas cordas uma sonoridade metálica prolongada)
Muddy Waters (1913-1983), ainda nos anos 40,
grava diversos Singles, dos quais se destacaria, pelo êxito que teve, “(I Feel
Like) Going Home" / "I Can't Be Satisfied” de 1948. Em 1950 grava “Rollin' Stone”, aqui vieram buscar a designação a revista “Rolling Stones” e
a banda The Rolling Stones.
Agora, nada melhor
que The Rolling Stones em 2006 e "I Can't Be Satisfied".
Com grande êxito nos
anos 50 e 60, Muddy Waters manter-se-ia em actividade até à sua morte em 1983.
Para terminar o seu “I Can't Be Satisfied".
Tradução da edição original francesa “Les Grands Créateurs
de Jazz”, Bordas S.A., Paris, 1989. Edição portuguesa da Editora Pergaminho de
1991.
Na contra-capa do livro:
“Mais de 300 criadores de Jazz, de
Armstrong a Thielemans, que pela riqueza dos seus temas e a variedade dos seus
estilos, elaboraram em menos de um século uma música de incontestável
vitalidade.
Do blues ao free-jazz, todas as grandes
correntes: New Orleans, be-bop, jazz cool, West Coast... e também as
contribuições e fusões: África, Caraíbas, Brasil, Europa... o que faz desta
música uma expressão cultural universal.
Uma descoberta progressiva da história do jazz, instrumento
por instrumento, privilegiando os grandes solistas, as suas inovações
específicas, a sua história e o seu legado discográfico.”
Organizado por instrumento, voz, piano, guitarra, clarinete,
trompete, saxofone, violino, etc. é um livro de rápida consulta sobre mais de 300
fundamentais músicos de Jazz e Blues.
O Rock’n’Roll só surgiu em Portugal, de forma tímida, nos anos 60.
Em meados
dos anos 50 o Rock’n’Roll já é dominante nos EUA com Bill Haley e Elvis Presley
à cabeça. Ou seja quando os músicos brancos se apoderaram e “suavizaram” os
ritmos e cânticos negros. Para chegarmos às origens do Rock’n’Roll teremos de
recuar mais uns anos, e ouvir Blues e Rhythm’n’Blues. Fiquemos, por agora, nos
anos 40 e com o músico negro Louis Jordan.
Louis Jordan (1908-1975), músico de Jazz, Blues e Rhythm’n’Blues,
percursor do Rock’n’Roll, teve particular sucesso nos anos 40 e 50 influenciou nomes
com Bill Haley, Little Richard, Chuck Berry e James Brown.
A escolha musical vai para “Saturday Night Fish Fry”, de 1949, nº 1 nas
tabelas de Rhythm’n’Blues, considerada uma das primeiras canções de “Rock’n’Roll”.
A presença da guitarra eléctrica e a letra a dar a ligação ao futuro Rock’n’Roll:
"It was rockin', it was rockin' You never seen such scufflin' And shufflin' 'til the break of Dawn"
José Afonso, Organização e Apresentação de José Viale
Moutinho, Colecção Vozes Livres, 2ª edição revista e ampliada de 1975, da Paisagem
Editora, Porto.
Para além de uma Antologia de Textos de Canções, possui
textos de Manuel Simões, A. F., António Cabral, Daniel Ricardo e Cáceres
Monteiro. Inclui ainda notícias e textos de jornais sobre a participação de
José Afonso no VII Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro
(1972).
Em Portugal, os anos 60 foram os anos de todas as mudanças (ou a
preparação de algumas atrasadas no tempo). Em termos musicais não foi só a
explosão do Ié,Ié, Rock, Pop ou o que lhe queiram chamar. Também na
área da música dita “popular” a evolução (revolução) foi profunda, do “nacional
cançonetismo” vigente, ao surgimento/crescimento do movimento das “baladas”,
até à “nova canção portuguesa” do início dos anos 70. Vários nomes são
incontornáveis nesta abordagem:
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Alegre, Luís Cília
(entre muitos outros) são nomes marcantes na revolução musical operada ao longo
da década.
Comecemos pelo José Afonso, já com algumas gravações nos anos 50,afastar-se-ia, progressivamente, do tradicional
fado de Coimbra em busca de novas sonoridades:
"Designei as minhas primeiras canções de baladas não porque soubesse
exactamente o significado do termo mas para as distinguir do fado de Coimbra
que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação” diria José Afonso, em “José Afonso” de José Vale Moutinho, 2ª Edição, Revista e Ampliada.
Em 1960 grava a belíssima “A Balada do Outono”. Curiosamente o EP, sob o
nome Dr. José Afonso, dá pelo título “Balada do Outono/Fados e Guitarradas de
Coimbra”.
José Afonso, já debilitado fisicamente, ao vivo no Coliseu em 1983,
canta “A Balada do Outono”.
(a evolução interpretativa de José Afonso é notória em comparação com a
versão de 1960, que ele iria voltar a gravar, em 1981, no álbum "Fados
de Coimbra e Outras Canções”)
Para audição “Balada do Outono”, pelo Dr. José Afonso, o início de uma
obra ímpar na música popular portuguesa.
De volta a Portugal e ao início dos anos 60...
Porque o Rock português tem vários avôs aqui fica mais um: Zeca do Rock.
Zeca do Rock (1943-2012) foi um dos pioneiros do movimento Ié-Ié. Sofre
influências de Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley, em 1961 grava o primeiro
EP onde constava a canção "Sansão foi enganado" escolhida para hoje.
Em 2008 (passados 47 anos!) a banda de Rock Bunnyranch (2002-), de
Coimbra, presta homenagem ao Zeca do Rock e inclui no 3º álbum uma honesta
versão de "Sansão foi enganado".
Quanto ao original, onde aparece o primeiro “Ié” gravado em português, é
para se ouvir várias vezes e no final dar conta que já se está gingar e a
sussurrar:
"Quando ele acordou, coitado, não tinha força
para nada foi então acorrentado por ordem de sua amada. Algum tempo já passado, o cabelo lhe voltou,
cheio de força e zangado, até a casa ao chão
deitou, ié!"
Bryan Ferry atingiu níveis elevados de popularidade a partir de “Slave
to love” (1985) ou, se quiserem, com “More than this” ainda com os Roxy Music em
1982. Há quem considere, de então para cá, a sua melhor fase, intérprete de standards
de Jazz (“As time goes by”-1999) e de êxitos de Bob Dylan (“Dylanesque”-2007). Sem
dúvida, capacidades interpretativas fora do comum; Brian Ferry, esse dandy do
rock convertido no Frank Sinatra moderno (dos concertos de rock ao musical dos
casinos).
No entanto, no topo das minhas preferências é necessário recuar ao
início dos anos 70 para descobrir o seu melhor. Quer a solo (“These Foolish
Things”-1973), quer nos primeiros álbuns dos criativos Roxy Music. Rock
vanguardista com uma vocalização cheia de “glamour” em tons decadentes. Uma
mistura explosiva. Com a Europa ainda à deriva seleccionei, do 3º álbum
“Stranded” de 1973, “Song for Europe” do role “grandes canções que não
conheceram o sucesso devido”.
Roxy Music numa grande interpretação de “A Song for Europe”, em 1979.
"Tous ces moments Perdus dans l`enchantement Qui ne reviendront Jamais"
Melhor ainda a gravação original dos Roxy Music de “A Song For Europe”;
melhor, melhor a audição do original em vinil, bem alto, claro!
O duo Os Conchas era constituído por José Manuel Concha e Fernando Gaspar que ao vencerem em 1960
o 1º concurso “Caloiros da Canção” gravaram a meias com o Daniel Bacelar aquele
que ficou conhecido como o primeiro disco de Rock'n’Roll português. Nele
interpretam a conhecida “Oh! Carol” de Neil Sedaka (1959).
Para apreciar o vídeo de Neil Sedaka em 1959 a interpretar “Oh! Carol”,
foi há 55 anos!
(como tudo se modificou)
Até 1964 foram bastante populares e gravaram mais 7 discos de 45 rotações
José Manuel Concha rapidamente virou músico “pimba” e ainda por aí anda.
Em português, direitinhos e certinhos o duo Os Conchas interpreta o
grande êxito que foi “Oh! Carol”
De encontro a mais um avô do Rock português deparamos com Daniel Bacelar.
Pioneiro no início dos anos 60 de qualquer coisa que ainda não se chamava
“Rock Português”, ficou conhecido como o nosso Ricky Nelson. A primeira
gravação é precisamente de 1960 num EP a meias com Os Conchas (tal e qual,
metade do disco é meu a outra metade é tua). O disco é considerado a primeira
gravação comercial (não se considerando outras experiências ainda dos anos 50
como, entre outras, a já anteriormente
referida, do Joaquim Costa, “ o Elvis de Campolide”, em 1959), de rock'n’roll
em Portugal.
O próprio Daniel Bacelar em resposta a mail meu, em 2008, dizia:
"Eu tinha
17 anos quando, por puro acidente, ganhei um concurso da Rádio Renascença e
gravei um E.P. para a VALENTIM DE CARVALHO sendo o lado A com duas canções
minhas e o lado B duas canções pelos Conchas que ganharam também como como
duo vocal. Foi o primeiro disco de rock'n’roll em português (se é que se pode chamar rock'n’roll)
e uma série de outros se seguiram tendo gravado o último com cerca de 22 anos.”
Teve a amabilidade de, na altura, disponibilizar-me a sua discografia.
“Fui louco por ti” é uma das faixas desse EP e é a memória para hoje.
Também nesse mail refere-se a “um
clip meu, com cerca de 28 anos, ainda a preto e branco, quando fui convidado a ir
ao programa dos SHEIKS na RTP2 "SHEIKS COM COBERTURA".”
Lembram-se do programa? Pois é esse vídeo que podemos agora recordar com
Daniel Bacelar a interpretar “Hello Mary-Lou”, sucesso de Ricky Nelson em 1961.
Tinha “estilo” e não ficava atrás do que se fazia lá fora… e já agora
desenferrujem as pernas e sigam a assistência.
A proposta de audição é “Fui louco por ti” do EP “Caloiros da Canção nº1”
com acompanhamento do Conjunto de Jorge Machado.
Foi há 50 anos.
O ano de 1964 vê Jean-Paul Sartre recusar o prémio Nobel porque para
um escritor comprometido politicamente não é a mesma coisa assinar Jean-Paul
Sartre ou Jean-Paul Sartre, Prémio Nobel.
A canção “Caroline” dos The Fortunes (grande êxito em 1965 com “You've Got Your Troubles”) dá nome à
famosa estação de Rádio Pirata, “Radio Caroline”, instalada em águas internacionais
para difundir a música Pop e Rock que não passava nas estações oficiais. O vídeo
“Caroline” é bem ilustrativo.
Thimoty Leary é expulso da Universidade de Harvard por fumar LSD
com os alunos e é fonte de inspiração para todo o movimento hippie e para JohnLennon: “Tomorrow Never Knows”, “Come Together”, “Give Peace a Chance” e para The Moody Blues em “Legend of a Mind”.
A geração Beat do final dos anos 50, início dos nos 60 (Allen Ginsberg,
Jack Kerouac, William S. Borroughs), é o embrião do movimento hippie,
misturando-se e confundindo-se com este. “Love and Peace” torna-se o lema de
uma geração. Vestes estranhas, coloridas e velhas, identificam os seus elementos,
e serão determinantes ao longo de toda a década de 60 na atitude anti guerra do
Vietname, na luta conta o consumismo capitalista, no gosto pela música de
protesto e no consumo generoso de estupefacientes. A
juventude negava a “american way of life”.
Para terminar, nada melhor que novo regresso a Bob Dylan, desta
vez para o álbum “The Times They Are A-Changin'” e o tema título. Estávamos em
1964, definitivamente os tempos já eram outros.
Mais um conjunto português em destaque na 1ª metade da década de 60: Conjunto Mistério.
Como ainda não tinham nome ao serem entrevistados na rádio pelo Carlos Cruz,
este apresentou-os como “conjunto mistério” e o nome pegou.
Em 1963 vencem o Concurso “Conjuntos Portugueses do tipo do "The
Shadows"”, apresentado pelo Fernando Pessa e realizado no cinema Roma para
promover o filme “Summer Holidays” (Mocidade em Férias) com Cliff Richard e The Shadows.
Outras influências se fizeram sentir e o Conjunto Mistério evolui para sonoridades
mais Pop-Rock.
Em 1965 gravam uma versão de “Tired of waiting for you” que é a
preferência para hoje.
“Tired of waiting for you” é um original dos britânicos The Kinks, que então
rivalizavam em popularidade com The Beatles. Não fosse a existência destes,
e The Kinks teriam hoje o reconhecimento
que The Beatles têm.
Do 2º álbum dos The Kinks um vídeo da época de "Tired of waiting for you”.
Numa época em que os conjuntos portugueses privilegiavam versões de
êxitos internacionais eis a interpretação do Conjunto Mistério de “Tired of
waiting for you”.
Livro de 1972, editado pela Champ Libre, Paris, descreve as
origens e evolução musical do Rock’n’Roll e da Pop Music, terminando com uma
discografia selectiva até 1971. Particularmente interessante é a 2ª edição
portuguesa da Regra do Jogo com um longo e fundamental posfácio de Miguel
Esteves Cardoso com o título “O Ovo e o Novo (uma) Discografia duma Década de
Rock: 1970-1980” escrito em Novembro/Dezembro de 1980.