"Que Sera", "Che Sarà", "Shake a Hand" são vários nomes para a mesma
canção em diferentes versões.
A versão que teve mais sucesso foi interpretada por José Feliciano que a
cantou originalmente em italiano no Festival de San Remo de 1971. A canção
ficou em 2º lugar naquele certame de prestígio internacional, mas, mesmo
assim, teve enorme êxito na voz de José Feliciano e nas várias línguas em que
a cantou.
É a letra da versão em Inglês, intitulada "Shake a Hand" e com sucesso em
particular nos países Escandinavos, que a revista "mundo da canção" publica no
seu nº 18 em Maio de 1971.
(Não confundir com a canção "Que Sera, Sera", bem mais antiga e que foi um
sucesso enorme na voz da Doris Day corria o ano de 1956).
Depois de John Lennon, Ringo Starr e George Harrison só falta Paul McCartney.
Não tenho, para hoje, Paul McCartney mas sim The Beatles que também marcavam
presença neste nº 18 da revista "mundo da canção". Era publicada a letra de
"Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", canção de abertura do histórico álbum
de 1967 com o mesmo nome, um dos melhores de sempre da música popular e que
elevaria esta a um estatuto que não tinha até então.
"Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" creditada a Lennon/McCartney como era
usual, foi na realidade escrita por Paul McCartney, justiça para quem numa
década se tornou um dos melhores e mais criativo dos músicos Pop-Rock.
Estávamos em 1971 e a revista "mundo da canção" colocava a letra numa página
designada "Êxitos de Ontem". "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" é de
1967, uma canção e um álbum não só de ontem mas para sempre.
The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
O trabalho maior de George Harrison designou-se "All Things Must Pass", foi
publicado em formato de triplo LP , era, depois de dois álbuns experimentais
ainda do tempo dos The Beatles, o primeiro trabalho a solo após a dissolução
do quarteto de Liverpool.
Num acumular de inspiração, que não se viu totalmente revelada enquanto The
Beatles existiram (1960-1970), George Harrison publica, ainda em 1970, o seu
melhor trabalho. "All Things Must Pass" contou com a colaboração de excelentes
músicos como por exemplo: Eric Clapton, Klaus Voormann, Ringo Starr e Billy
Preston. Dele resultaram sucessos como o tema título, "Isn't It a
Pity", "What Is Life" e o maior de todos "My Sweet Lord".
Neste nº 18 da revista "mundo da canção" eram publicadas a letra e também a
pauta de "All Things Must Pass" e é naturalmente com ela que fica a minha
proposta de audição de hoje.
Até
Ringo Starr, claramente o menos produtivo e criativos dos
The Beatles, sobressaiu quando estes terminaram. Logo em 1970 publicou dois LP,
respectivamente "Sentimental Journey" e "Beaucoups of Blues" de sucesso
mediano. Em 1971 é a vez de um Single com a canção "It Don't Come Easy", uma
das canções dele mais conhecidas pós
The Beatles.
Depois foi um arrastar de álbuns que nada de novo trouxeram e o prolongar de
sucessivas digressões com a His All-Starr Band.
A produção de "It Don't Come Easy" esteve a cargo do amigo George Harrison que
se ouve bem e recomenda-se na guitarra inicial. O nº 18 da revista "mundo da canção" em Maio de 1971 publicava a letra de "It Don't Come Easy".
The Beatles terminaram em 1970, mas o contributo individual e as influências
que exerceram no universo musical perduraram no tempo. Apesar de Paul McCartney e Ringo Starr ainda hoje continuarem no activo na realidade
importância da música por eles actualmente praticada é podemos dizer nula,
resta a recordação de outros tempos o que não é pouco.
Em 1971 estava tudo ainda muito fresco, "Let It Be", o último álbum do grupo,
tinha somente um ano de existência e as gravações a solo sucediam-se deixando
esperanças nos respectivos futuros individuais. Na revista "mundo da canção"
eram presença assídua e este nº 18 de 1971 não é excepção.
Vejamos o caso de John Lennon, é dele com a Plastic Ono Band que são
publicadas as letras de duas canções: "Working Class Hero" do álbum "John
Lennon/Plastic Ono Band" de 1970 e "Power To The People" editada em Single já
em 1971.
Destes testemunhos revolucionários proponho "Working Class Hero".
Andy Williams (1927-2012) foi um cantor muito popular nos anos 50 e 60 não só
como intérprete de canções standards norte-americanas como também actor de
cinema.
Era comum a edição de álbuns totalmente dedicado a versões e o LP "Love Story"
de 1971 foi um deles.
Numa mescla de boas canções, como por exemplo "Your Song", "Something" e "Fire
and Rain", com outras de êxito mais fácil tipo "Candida" ou "Rose Garden", lá
se encontra a canção que dá título ao álbum sub-intitulada "(Where Do I
Begin)".
Recorde-se: "Love Story" foi um filme romântico-dramático cujo banda sonora
teve enorme relevância, tendo sido popularizado o tema "Theme from Love Story"
na versão apenas orquestral de Henri Mancini. De seguida foi a versão com
letra denominada "(Where Do I Begin) Love Story" na interpretação de Andy Williams sendo a letra publicada no nº 18 da revista "mundo da canção".
Vamos então para a música de expressão anglo-saxónica que de alguma forma era
referida neste nº 18 da revista "mundo da canção", recordo, mais uma vez, que
estamos em Maio de 1971.
E, como era habitual, o ecletismo constante na revista é enorme, indo desde o
mais comercial e medíocre até ao mais interessante e moderno que então
se publicava. Num extremo temos por exemplo os Mungo Jerry no outro Bob Dylan.
Começo pelo menos interessante ou seja os Mungo Jerry. Depois do super êxito
que foi, no Verão de 1970, "In The Summertime", primeiro lugar de vendas em
quase todo o mundo. Vieram mesmo a Portugal tendo actuado a 3 de Janeiro de
1971 no Teatro Monumental em Lisboa.
Tentaram manter-se à tona mas a popularidade foi progressivamente diminuindo e
rapidamente desapareceram de cena.
Em 1971 ainda lograram algum sucesso com "Baby Jump", que pertencia ao mesmo
álbum,"Electronically Tested", que "In The Summertime", mas não mais
alcançaram o sucesso desta. Confesso que já dela não me lembrava e também
pouco se perde, de qualquer forma aqui vai.
Serge Reggiani (1922-2004) já teve várias passagens neste meu blogue fruto da
regular presença na revista "mundo da canção", lembro que estávamos em Maio de
1971 e que a música francesa teimava, apesar da invasão da música
anglo-saxónica, em manter-se viva na cena internacional.
De origem italiana teve a sua vida artística dividida entre o cinema e a
canção, foi na faceta de intérprete da canção francesa que o conheci melhor e
de que guardo recordações.
Continuo pois a recordá-lo com todo o agrado, desta vez com a canção "Je
Voudrais Pas Crever", pertencia ao álbum homónimo publicado em 1970 e saiu
também em Single em 1971. Mais uma bela memória, espero que gostem.
Claude Nougaro (1929-2004) foi um compositor e cantor francês.
Foi um dos muitos cantores que popularizaram a canção francesa nos anos 50 e
60 tais como Jean Ferrat, Boris Vian, Juliette Gréco, Serge Reggiani,
Georges Brassens, Jacques Brel, Georges Moustaki, Léo Ferré e Colette Magny.
Tempos em que a canção francesa era dominante antes da avalanche da música em
língua inglesa ao longo dos anos 60.
Esta primeira passagem por Claude Nougaro deve-se à revista "mundo da canção"
que no seu nº 18, em Maio de 1971, publica a letra da canção "La Neige".
Uma bela recordação de uma canção que eu já não me recordava de todo.
Pertencia ao álbum ""Sour Âme" publicado em 1971.
Lá consegui mais uma referência à música espanhola neste nº 18 da revista
"mundo da canção". Trata-se de um parágrafo na rubrica "mc Notícia" onde,
entre pequenas notícias de edições discográficas se refere o nome de Patxi Andión.
Muito provavelmente vi e ouvi Patxi Andión pela primeira vez no programa
televisivo "Zip-Zip" no ano de 1969. Apesar de muito novo foi um programa que
me marcou e os nomes que por lá passaram, muitos deles não mais esqueci.
Eis a notícia:
"Patxi Andión, nome bem conhecido dos portugueses através das actuações na
Televisão e dos discos lançados o ano passado, tem agora novo «single». São
de ouvir as duas canções de sua autoria incluídas neste 45 rotações: «Doña Anita» e «Lupe»."
Antes de abordarmos os temas em língua inglesa passagem pela língua espanhola
e francesa que também constavam no nº 18 da revista "mundo da canção".
Relativamente à música espanhola pouco há a adiantar. O destaque maior vai
para os Aguaviva que naqueles anos monopolizavam a atenção que que concerne às
novas sonoridades provenientes do país vizinho.
"Aguaviva o novo espectáculo chama-se "Apocalipse"" assim se intitulava o
texto que ocupava uma página na revista "mundo da canção" nº 18 editada em
Maio de 1971.
"Apocalipsis" era o segundo trabalho dos Aguaviva, comandados por Manolo Diaz,
e terá sido concebido, de acordo com o texto, em 35 dias e gravado em 72
horas. Lembro-me bem de ouvir alguns temas na nossa rádio, em particular no
programa "Página Um" que seguia diariamente. Eram sons completamente novos em
relação ao que era habitual vindo de Espanha, nomeadamente do Festival da
Eurovisão, e que nunca mais esquecerei.
Para hoje mais um tema de "Apocalipsis", "La Ciudad Es de Goma" é a canção.
Mais um retorno a Teresa Paula Brito. Vai-se lá saber porquê, mas a Teresa Paula Brito não teve o reconhecimento popular que devia ter tido.
Multifacetada no estilo utilizado, do Pop ao Jazz, teve o seu valor
distinguido em 1970 com o Prémio da Casa da Imprensa na categoria de música
ligeira. Mas o melhor estaria para vir no ano seguinte com o EP "Minha Senhora
de Mim" por já por diversas vezes evocado.
Tito Lívio, em artigo na revista "mundo da canção" nº 18, faz-lhe justiça e
começa assim:
"Antes de mais um excelente trabalho de equipa: para a poesia crua de Maria
Teresa Horta a música forte de Nuno Filipe, a inteligência dos arranjos de
Rui Ressurreição entendendo perfeitamente o mundo poético de Teresa Horta,
os instrumentistas que colaboraram na gravação, num trabalho válido e
positivo, o notável registo de som de Jean François Beaudet. O que, em
conjunto transforma o disco «Minha senhora de mim» na gravação de
música portuguesa mais importante do ano."
Nunca é demais recordar este disco, hoje volto a "Existem Pedras".
Perto do fim desta passagem pela música portuguesa de algum modo referida no
nº 18 da revista "mundo da canção". Recordo que estávamos no mês de Maio de
1971, parece que foi ontem. Tinha eu 14 anos, idade suficiente para saber o
que se passava no país política e culturalmente. Tempo da chamada Primavera
Marcelista que em pouco resultou, a liberalização do regime não se verificou,
a democracia não foi instalada e manteve-se a guerra colonial.
Musicalmente, em termos de música popular portuguesa, 1971 foi um anos
importante não só pela crescente onda de "badaleiros", alguns com propostas
bem interessante, com, e principalmente, pelo surgimento de Sérgio Godinho e
José Mário Branco que de França publicavam os seus primeiros trabalhos.
Por cá seriam os trabalhos de José Afonso, "Cantigas do Maio" e Adriano Correia de Oliveira com "Gente de Aqui e de Agora" que se iriam destacar.
Seriam os trabalhos deste quatro músicos que iriam estar na origem de uma
verdadeira revolução no que diz respeito ao panorama musical português. Outros
houve, como por exemplo o Padre Fanhais, cuja aparição em 1969 o torna uma voz
incómoda para o regime e para a igreja tradicionalista.
O último disco de originais que o Padre Fanhais gravou foi um EP, "Corpo
Renascido", com 4 canções, editado em 1971, onde constava "Porque" cuja letra
vinha publicada no nº da revista "mundo da canção" que estou a recordar.
Suspenso das suas funções religiosas pela hierarquia católica, parte para
França em Abril de 1971 e este disco já aparece assinado como Francisco Fanhais.
Com letra de Sophia de Mello Breyner vamos ouvir "Porque".
Depois de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, duas figuras ímpares da
renovação musical portuguesa e da luta contra o fascismo antes do 25 de Abril
de 1974.
Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) foi um cantor que começou por se
distinguir na interpretação da canção de Coimbra evoluindo para canções de
protesto onde são evidenciadas questões relacionadas com a luta pela liberdade
e injustiças sociais. Foram várias as canções onde utilizou a poesia de Manuel
Alegre para o fazer.
Neste nº 18 da revista "mundo da canção" de Maio de 1971 é publicada a letra
completa do poema "Canção com Lágrimas e Sol" que Adriano Correia de Oliveira interpretou como "Canção com Lágrimas" com alguma simplificação na
letra.
Pertence ao excelente álbum "Cantaremos" publicado em 1970.
Continuo com a música popular portuguesa que de alguma forma tinha expressão
no nº 18 da revista "mundo da canção", decorria o mês de Maio do ano de 1971.
E presença obrigatória lá se encontrava José Afonso, figura maior da renovação
da nossa música popular, em particular no anterior ao 25 de Abril de 1974.
Desta feita eram publicadas, em páginas distintas (qual seria a razão?), a
letra de duas canções de José Afonso, respectivamente "Canta Camarada" e "Os
Eunucos".
Esta última pertencia ao álbum "Traz Outro Amigo Também" (1970), obra
fundamental na discografia do autor e que já recordei em Regresso ao Passado
mais antigo.
Quanto a "Canta Camarada, Canta" ou melhor somente "Canta Camarada" como
consta, como lado B, do Single "Menina dos Olhos Tristes" em que foi editada
no ano de 1969.
Como sempre que seja uma boa recordação para quem a conhece e, para os mais
novos, uma boa descoberta dos tempos difíceis que então se passavam.
"Até que enfim. Ao que parece Nuno Filipe deixou de cantar! Bela medida.
Congratulemo-nos todos. Nuno Filipe, de agora em diante, só comporá e
divulgará a poesia de Maria Teresa Horta, poeta que merece ser cantado, mas
não por seu cunhado, que, em boa verdade não tem voz nem poder
interpretativo. Escolheram Teresa Paula Brito e deram efectivamente no 20. O
que não se ouvia passou a ser escutado com atenção."
começava assim o texto "Brik a Brak" disponível no meu último Regresso ao
Passado. Não concordando no que diz respeito à satisfação por Nuno Filipe ter
deixado de cantar, penso que tinha muitas potencialidades, tem a a minha
satisfação por ter composto, com letras de Maria Teresa Horta, para a cantora
de linda voz Teresa Paula Brito.
Pena foi que esta colaboração fosse única e que tivesse resultado somente num
EP de 3 canções que já tive oportunidade de recordar noutros propósitos.
Neste nº 18 da revista "mundo da canção" com data de edição de Maio de 1971
era reproduzida a letra de uma dessas canções, exatamente "Meu Aceso Lume -
Meu Amor". Do melhor que então se fazia neste país,
O primeiro, "Brik a Brak", onde se crítica muito e muitos como por exemplo,
Wilson Simonal, Jorge Ben, Maria Bethânia, um tal Vittorio Santos e onde se
enaltece Nuno Filipe por ter deixado de cantar (infelizmente deixou, digo eu).
O segundo intitulado "Poesia e Música de Jazz ou as Poéticas, Dialéticas, e
outras coisas mais ou menos intelectuais" dedicado ao disco "Poesia e Música
Jazz".
E das duas uma ou já não me lembrava de todo ou não cheguei a conhecer este
disco. Trata-se de uma gravação "... que contém poemas escritos e declamados pela actriz Manuela Machado,
com temas jazzísticos de Paulo Gil, executados pelo próprio, Jean Sarbib e
Rui Cardoso".
O lado A intitulado "Os Outros" continha as faixas:
A1. Grito Universal A2. Tragédia 67 A3. Préstito Fúnebre A4.
Ao Povo do Meu País A5. Poema de Natal
A6. Liberdade
e o lado B:
B1. Quando Vim Ao Mundo
B2. Em Cada Um
B3. A Ti
B4. A Minha Fé
B5. Quando o Momento Chegar
B6. Queimem-me
A proposta de audição vai para a faixa final "Queimem-me" referida no texto
como "revelação". Aqui vai na voz de Manuela Machado.
Mais um texto referente à música de produção nacional que foi publicado no nº
18 da revista "mundo da canção" do mês de Maio do ido ano de 1971.
Desta vez é sobre a música ligeira portuguesa, em pleno movimento de
renovação, que teve alguns intérpretes como Paulo de Carvalho e Fernando Tordo
oriundos do Pop-Rock dos anos 60 como principais impulsionadores. Mas houve
mais e neste texto intitulado "da Balada a DUARTE MENDES" dá-se conta
precisamente de Duarte Mendes, o qual
"Demonstra grandes potencialidades interpretativas", e porque tem um um
reportório que
"... não fez (e promete não fazer) concessões ao obscuro, ao pires, à
comercialite...".
É num registo Pop que ainda em 1971 é publicado o 3º Single com as canções
"Vou Dançar nas Manhãs de Janeiro" e "Dulce Neia". Para ouvir esta última
composta pela parceria António Pinho e Luís Linhares, era a renovação da
música dita ligeira.
Ainda ontem referia a proliferação de festivais de música que se iniciou no
ano de 1971 e para hoje mais um: o II Festival Musical da Juventude.
Dele dava conta a revista "mundo da canção" no seu nº 18 estávamos em Maio de
1971 que em artigo intitulado "MINI-FESTIVAL TV em ALMADA" desancava em mais
um festival onde as canções "... eram todas muito más."
Mais um "tesourinho deprimente" a juntar-se a juntar-se a outros certames que
na altura por cá se realizavam. Eis o texto.
A complementar o referido Festival por lá terão passado,
"Para além de alguns baladistas (José Barata Moura e Deniz Cintra) e de
algumas outras figuras ligadas ao movimento de «renovação» da música
ligeira: Hugo Maia de Loureiro ( a fazer humor!), José Manuel Osório
(apupado), Nuno Filipe, Teresa Paula Brito, que cantou acompanhado de Carlos
Alberto Moniz e José Jorge Letria (impedido de actuar sozinho), etc. E até
lá foram (imaginem!) o José Cheta e o Nino Sanchez."
Em 1971 os festivais em Portugal começaram a proliferar, não como hoje em dia
que se realização de todos os tipos e feitios em qualquer lugar ao virar da
esquina e cuja qualidade é maior parte das vezes de veras questionável, e já
não era o, por muitas vezes já por mim referido, Festival da RTP da Canção.
Foram os famosos primeiro Festival de Vilar de Mouros e o 1º Festival de Jazz
de Cascais. Infelizmente nem todos com a qualidade destes dois últimos, também
naquele ano realizou-se um tal Festival Pop-71 realizado em Coimbra e de gosto
mais que duvidoso.
A revista "mundo da canção" nº 18 de Maio dedica-lhe nada mais nada menos que
três páginas o que não se percebe face à descrição altamente negativa que faz.
Ou então era essa mesmo a intenção, chamar a atenção da má qualidade do mesmo,
só o título já diz tudo: "Vamos brincar aos Festivais? (ou... Era uma vez um
Festival Pop.71)".
Para os que tiverem interesse e paciência aqui ficam reproduzidas essas
páginas.
Para quem não teve paciência, directos para a canção vencedora do dito certame:"Cristine Goes to Town" interpretada pelo grupo de Pop-Rock Beatnicks que naqueles tempos
chegou a ter alguma notoriedade.
Vamos lá passar em revista mais um nº de o "mundo da canção" no seu nº 18
encontrávamo-nos em Maio de 1971. E vejamos o que nos espera no que diz
respeito à música popular portuguesa.
Para começar uma entrevista a José Jorge Letria com o título "a palavra
FESTIVAL assusta-me" porque o que interpretava
"... não é música para festival" distanciando-se assim, nomeadamente do
Festival da RTP da Canção acontecimento importante naqueles tempos, pois
tinha
"... todo o meu desacordo com o sentido competitivo de um festival...".
Diz ao terminar a entrevista que "... estou preparando o meu novo single onde
incluo «Pare, Escute eOlhe» e «Arte Poética»" duas canções marcantes na
carreira de José Jorge Letria e que viriam a ser incluídas no primeiro e bom
álbum que foi "Até ao Pescoço" em 1972.
Avanço para mais um nº da revista "mundo da canção". Vou para o nº 18 com data
de publicação de 20 de Maio de 1971. Na capa uma fotografia dos Emerson, Lake and Palmer.
Em 1971 e nos próximos poucos anos o Rock progressivo encontrava-se no seu
apogeu. Resplandecia por todos os lados e muitos eram os grupos que se
aventuravam desde os finais da década de 60 por sonoridades novas. Rico
instrumentalmente, liricamente poético, o Rock Progressivo avançava na
descoberta de novos sons, alguns dos grupos fazendo, paradoxalmente, a fusão com
a música Clássica.
Os Emerson, Lake and Palmer eram um bom exemplo, em particular nos álbuns que
mais apreciei, os 4 primeiros publicados de 1970 a 1972. À data da publicação
deste nº 18 da revista "mundo da canção" os Emerson, Lake and Palmer tinham
somente editado um álbum, para mim o melhor, donde tinha sido extraído "Lucky
Man" que teve algum sucesso nas rádios e nas vendas.
Curta ainda o sua existência mas que já justificava a elaboração de uma ficha
com a história do grupo, lembre-se que os três músicos já eram conhecidos de
anteriores grupos, respectivamente Nice, King Crimson e Atomic Rooster.
Segue "Tank" "a faixa onde os três músicos encontram maiores afinidades e um
som comum".
E eis a última passagem pela música popular portuguesa do ano de 1976. Para
mim o melhor trabalho editado naquele ano: "Coisas do Arco da Velha" da Banda do Casaco.
António Pinho (ex-Filarmónica Fraude) e Nuno Rodrigues (Ex- Música Novarum)
encontraram-se à frente deste projecto que existiu entre 1974 e 1984 e que nos
deliciou com diversos álbuns nomeadamente este, "Coisas do Arco da Velha" o
segundo trabalho do grupo (o primeiro tinha sido "Dos Benefícios dum Vendido
no Reino dos Bonifácios" no ano anterior). Um projecto bem diversificado ao
longo dos ano nomeadamente nos convidados, neste caso iam de Carlos Zíngaro a
Cândida Branca-Flor.
Eu, que sempre fui amante do Folk-Rock via na Banda do Casaco como sendo os
nacionais Fairport Convention ou os Steeleye Span que tanto apreciava. E na
realidade "Coisas do Arco da Velha" era bem a simbiose entre a nossa música
tradicional e as propostas sonoras modernas que uma panóplia de instrumentos
eléctricos proporcionavam.
Edição em CD, de 1993, com a ref: 518758-2
“Coisas do Arco da Velha” é um caso sério. É um álbum difícil de igualar e
está entre os melhores discos de música portuguesa, pelo menos da década de
70. Poucos se lhe equiparam, “Cantigas de Maio” do José Afonso e poucos mais.
No ano de 1976, as influências do 25 de Abril eram ainda muito evidentes, mas
a Banda do Casaco rasgava claramente com todos os convencionalismos e
aventurava-se por territórios onde se cruzavam figuras tão díspares como a
cantora Cândida Branca Flor e o violinista Carlos Zíngaro anteriormente
referidos. Por entre arranjos de canções tradicionais e originais o álbum
desenvolve-se de forma irrepreensível ao longo de 11 canções a saber:
Morgadinha dos Canibais Ai Mé André Romance de Branca Flor Rigolindo Olá
Margarida Canto de Amor e Trabalho É Triste não Saber Ler Virgolino
Faz o Pino A Mulher do Regedor Era Uma Vez Uma Velha
Cantiga D’Embalar Avozinhas
E para recordar ficamos logo com “Morgadinha dos Canibais”.
Do que melhor se fez em Portugal no ano de 1976 encontra-se
Sérgio Godinho. Iniciado na edição de álbuns em 1972 com o histórico "Os Sobreviventes", em
1976 publica o seu 4º trabalho de nome "De Pequenino se Torce o Destino".
"É toda uma crónica que perpassa pelas canções do DE PEQUENINO SE TORCE O
DESTINO: a crónica de um país contado como só Sérgio Godinho sabe contar,
muito ao jeito de quem pede licença para nos apresentar a nós próprios,
através de cantos com palavras e os sentimentos do nosso dia-a-dia." pode-se ler em "Música Popular Portuguesa - um ponto de partida" de Mário Correia.
Edição em CD, de 2001, com a ref: 848 104-2
Com em estilo muito próprio de compor e cantar, com influências musicais que
vão da canção francesa ao Pop-Rock anglo-saxónico dos anos 60,
Sérgio Godinho
construiu uma carreira ímpar na renovação da nossa música popular onde, aqui e
ali, se denúncia, conforme a situação politica, as condições de vida do povo
português. São disso exemplo canções como "Um Tractor" e "Foi a Trabalhar" que
integram este álbum.
Possuidor de uma unidade estética impressionante as suas canções percorrem
todo o universo de emoções do ser humano onde o amor marca presença regular.
Ouça-se "O Namoro", canção incontornável em toda a obra de
Sérgio Godinho.
E eis o meu Top 3 de álbuns portugueses de 1976. Começo com José Afonso.
É sabido que dos 14 álbuns de originais que José Afonso gravou, os 7 primeiros
anteriores ao 24 de Abril de 1974 são aqueles mais conhecidos e os que reúnem
particular carinho por quantos viveram aqueles tempos e davam conta da
importância que tais gravações tinham na luta anti-fascista. Alguns álbuns
encontram-se entre os melhores de sempre da nossa música popular, o que é
inegável.
Diga-se que a discografia pós 25 de Abril não teve o mesmo impacto o que não
significa que seja propriamente uma obra menor.
https://www.discogs.com/
É o primeiro álbum gravado em Portugal após o 25 de Abril, depois dos cinco
anteriores, talvez os melhores da sua discografia. Um álbum com ritmos
africanos acentuados, musicalmente bastante rico, mas com algumas letras a não
serem imunes ao processo revolucionário que então começava a desvanecer, por
vezes mesmo panfletário.
Sobressai neste álbum "Os Índios da Meia-Praia", mais uma pequena maravilha de
José Afonso.