Verifico, agora, que muitos foram os álbuns de música popular portuguesa que
durante o ano de 2025 tive de alguma forma oportunidade de ouvir. Infelizmente
uma boa parte deles não tiveram a divulgação devida nos meios de comunicação
tradicionais, rádio e TV, e que, definitivamente, é através das plataformas
digitais, Youtube e Spotify, que as novidades são difundidas.
Eis uma lista de alguns álbuns que mereceram a minha atenção durante o ano
findo:
- Luís Tinoco, João barradas - Unfolding - Mão Morta - Viva La Muerte -
Linda Martini - Passa-Montanhas - Capicua - Um Gelado Antes Do Fim Do
Mundo - Rão Kyao - Fado Bambu - No Som da Palavra - Tó Trips -
Dissidente - Ana Bacalhau - Mundo Antena - Rodrigo Leão - O Rapaz da
Montanha - Salvador Sobral, Sílvia Pérez Cruz - Sílvia & Salvador -
Montanha Mágica - Praia, Campo, Cidade e Montanha - Minta & The Brook
Trout - Stretch - Márcia - Ana Márcia - Carminho - Eu Vou Morrer de
Amor ou Resistir - Miramar - Miramar III - MXGPU - Sudden Light -
Noiserv - 7305 - A Garota Não - Ferry Gold
- Três Tristes Tigres - Arca
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Herdeira da melhor música de intervenção efectuada em Portugal, este ano, a
escolha vai para A Garota Não com o seu trabalho "Ferry Gold". A canção é "Este país não é para mães".
Felizmente que o mundo ainda vai dando cantoras como Katherine Priddy. Quando musicalmente parece estarmos a passar um período menos interessante (ou estarei eu mal informado?) ainda surgem nomes que nos cativam logo numa primeira audição. É o caso de Katherine Priddy que logo nos encantou no primeiro álbum "The Eternal Rocks Beneath" (2021) e confirmado em 2024 com "The Pendulum Swing".
Enquanto se aguarda pelo terceiro registo "These Frightening Machines" anunciado para o próximo mês de Março e no dizer da própria: “If the first album was for building a foundation, and the second album was about reinforcing what I’d already begun, the third album felt to me like a chance to be bolder, push out and try something new.”, 2025 viu ser publicado em vinil um belíssimo duplo álbum (na realidade só 3 faces têm áudio) gravado ao vivo "Live At Union Chapel".
Duplo álbum em vinil da Cooking Vinyl com a ref:COOKLP937
Uma delícia para os sentidos e uma boa entrada para descobrir Katherine Priddy. Ouça-se "Ready To Go" e digam lá se não tenho razão...
Num ano que ficou atrás, em meu entender, de anos anteriores, onde, ao que me
foi dado ouvir, não surgiu nada de altamente recomendável em termos de
inovação e/ou de elevar a música popular a níveis qualitativos maiores,
não deixei de ouvir algumas das propostas surgidas e que passo a sugerir a
respectiva audição:
The Weather Station - Humanhood Sharon Van Etten - Sharon Van Etten & the Attachment Theory Hank Dogs -
Fiveways Valerie June - Owls, Omens and Oracles Marc Ribot - Map of a
Blue City Brian Eno, Beastie Wolfe - Luminal Wet Leg - Moisturizer Swans
- Birthing Sharp Pins - Radio DDR Big Thief - Double Infinity Patrick
Watson - Uh Oh
Poor Creature - All Smiles Tonight
Mànran - To the Wind
No entanto, é da Irlanda que continuam a vir as melhores propostas. Em
mais uma derivação dos poderosos Lankum estreou em 2025 o trio Poor
Creature a explorar variações do Folk Psicadélico com o álbum "All Smiles
Tonight".
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Oito longos temas, somente três são originais, constituem este
álbum a demonstrar o manancial infindável da música tradicional tão bem
aqui recriada.
Poor Creature são a revelação de 2025. Para audição fica o tema título.
O velho hippie está de volta, ou melhor, na realidade nunca nos deixou.
Donovan está com 79 anos e mais de 60 de carreira na qual se destaca o período
de 1965 a 1973 onde produziu 11 álbuns do melhor Folk-Rock que então se
praticava na Grã-Bretanha.
Sem o fulgor de então continuou a actuar e gravar até aos nossos dias sendo
que são as canções dos anos 60 e 70 que perduram entre o melhor que recordamos
do Folk e géneros adjacentes que ele cultivou.
O final do ano 2025 viu surgir um novo álbum e pena é que seja somente
digital. De nome "What's a girl" é composto por um conjunto de canções nunca
lançadas antes e que só podiam ser encontradas em gravações não
oficiais.
Na página oficial Donovan diz:"In this last Month of my Sixtieth Anniversary Celebration Year of 2025, I
present an album of my much loved fusions of Metal Folk, Gaelic Romance,
Orchestral Classical Folk, Grunge Pop and Poetry. I never released these
tracks officially until now, they escaped for a while as bootlegs. And now
as a fitting Finale to my 2025 D60, here they are."
Para hoje uma das melhores memórias que 2025 deixou: o último álbum de David Byrne.
David Byrne pertence à primeira geração pós anos 60 tendo-se revelado à frente
de uma das melhores bandas de então, os Talking Heads (1975-1991). A solo
estreou-se ainda nos 80 e assim continua até aos nossos dias com uma muito
interessante discografia.
Agora, já com 73 anos, publica "Who Is the Sky?" acompanhado pela Ghost Train
Orchestra e é um dos discos que mais tenho ouvido desde que foi editado em
Setembro passado. "Who Is the Sky?" sobressai no actual panorama musical onde
as novidades, pelo menos para mim, não têm trazido nada de muito cativante,
apresentando uma vivacidade digna de realce com canções que se gosta logo à
primeira audição.
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Num disco muito equilibrado "Everybody Laughs" e "What Is the Reason for
It?" entraram imediatamente na minha cabeça e, por vezes, dou-me a
cantarolá-las como nos bons velhos tempos de juventude quando as boas
novidades eram frequentes e isso é um grande elogio para "Who Is the Sky?"
Num tempo em que não me identifico com a maior parte dos álbuns que aparecem
nas diferentes listas como os melhores do ano, fico com este "Who Is the Sky?"
como o trabalho de 2025 que me deu mais prazer continuando assim a lista
daqueles que o tenho vindo a considerar, lembrando:
Antes de passar a um conjunto de memórias relativas a artistas mais recentes,
não podia terminar esta série relativa a músicos que que nos anos 60 já tinham
actividade artística sem recordar Peggy Seeger.
Peggy Seeger tem actualmente 90 anos e em 2025 publicou "Teleology", aquele
que parece ser o seu último álbum. Peggy Seeger tem uma longa carreira sendo
necessário recuar aos anos 50 para encontrar os seus primeiros registos. A
conhecida canção "The First Time Ever I Saw Your Face" escrita, ainda nos
anos 50, por Ewan MacColl para Peggy Seeger só seria gravada por esta em
1962 e seria um grande êxito 10 anos mais tarde na voz de Roberta Flack.
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Curiosidade, "The First Time Ever I Saw Your Face" é novamente interpretada
neste último álbum onde Peggy Seeger revela ainda uma frescura vocal invejável
para a sua idade. Nele consta este agradável " I Want to Meet Paul Simon"
que ao que parece não chegou a conhecer pessoalmente.
É verdade, os últimos álbuns de Van Morrison não me satisfizeram. Não que
fossem de se ignorar mas também não ficaram para múltiplas audições, faltava
qualquer coisa que discos mais antigos de Van Morrison possuíam. E, confesso,
tinha já dúvidas se voltaria a sentir aquele prazer único que noutros tempos
os seus trabalhos proporcionavam. E eis que o álbum que mais terei ouvido em
2025 foi o último álbum de originais designado "Remembering Now" e junta-se
assim ao melhor que neste século gravou como "Magic Time" (2005), "Keep Me
Singing" (2016) e "Three Chords & the Truth" (2019).
CD editado por Exile Productions com a ref: 4003445666
Sem acusar os seus já 80 anos "Remembering Now" encontra-se entre o melhor que
o ano de 2025 nos deixou, um ano que parece não primar por grandes
novidades...
"Memories and Visions" revela bem a qualidade deste álbum. Que se repita por muitos anos pois a música popular bem precisa de Van Morrison.
Presença regular nestas memórias é Joni Mitchell. Pese o seu último disco de
originais ser de 2007 ("Shine"), Joni Mitchell tem-nos prendado com
publicações diversas, em particular os excelentes arquivos dos quais já foram
editados, em 4 volumes, os anos de 1963 a 1980. Em 2025, uma nova caixa mas
desta vez não na continuação cronológica dos 4 volumes referidos. Trata-se de
"Joni's Jazz", uma caixa de 4 CD transversal a toda a carreira de Joni Mitchell, uma abordagem jazzística à sua obra que conta com a colaboração de
nomes grandes do Jazz como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Jaco Pastorius e
Charles Mingus.
Caixa de 4 CD da editora Rhino com a ref: R2 727353 / 603497818754
Esta colectânea de canções vai do primeiro álbum "Song To a Seagull" (1968)
até à recente aparição no Festival de Newport (2022) do qual resultou o álbum
"Joni Mitchell at Newport" (2023) ou seja cerca de 55 anos de gravações. Horas
de prolongado prazer é o que proporciona a audição de "Joni's Jazz". Espera-se
que Joni Mitchell tenha longa vida e que continue a marcar presença com os
seus arquivos que, espero, estejam longe de estar esgotados.
Inevitavelmente, Neil Young. Presença regular nestas minhas memórias, Neil Young não pára e mantem a sua actividade artística bem presente quer em
concertos que na produção discográfica. Assim em 2025 vimos ser editados os
seguintes álbuns:
- "Coastal: The Soundtrack"
Banda sonora do filme documentário, "Coastal", realizado por Daryl Hannah
durante o Tour a solo de 2023.
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- "Official Release Series Discs 26, 27, 28 & 29"
No que diz respeito aos arquivos de Neil Young este ano viu sair o Volume 6 da
série correspondente aos discos originais (ORS), contendo esta caixa os disco
26, 27, 28 e 29 ou seja, respectivamente "Harvest Moon" (1992), "Unplugged" (1993), "Sleeps With Angels" (1994) e "Mirror Ball" (1995).
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4 discos essenciais de uma fase particularmente boa de Neil Young. Uma boa
aquisição para quem a seu tempo não adquiriu os originais.
- "Oceanside Countryside"
No entanto, a primeira novidade de 2025 ocorreu logo em Março com a edição
de "Oceanside Countryside". Trata-se do nº 7 da Special Release Series (SRS)
com material gravado e não editado a seu tempo. Originalmente gravado em 1977
é composto por 10 temas que, com a excepção de "Dance, Dance, Dance" que Neil Young ainda não tinha editado em álbum de estúdio, já tinham sido publicadas
noutros álbuns de originais.
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Agora é a vez das misturas originais serem publicadas na recuperação de mais
um álbum "perdido" de Neil Young que deveria ter precedido "Comes a Time".
- "Talkin to the Trees"
Por fim o último álbum de originais com a sua nova banda The Chrome Hearts. É
isto que gosto em Neil Young, no ano em que fez 80 anos grava com um novo
grupo e escreve canções de protesto contra a situação política nos USA
(ouça-se “Let’s Roll Again” e "Big Change"). Paradoxalmente, esta irreverência
nem sempre resulta num bom álbum e "Talking to the Trees" não ficará, com
certeza, entre o melhor que a sua longa carreira já nos proporcionou.
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"Talkin to the Trees" leva três estrelas o que é pouco para o que nos
habituou.
Robert Plant tem 77 anos e ficou conhecido como o vocalista de uma das
melhores bandas de Rock de sempre, os Led Zeppelin. Os Led Zeppelin
(1968-1980) preencheram musicalmente toda a minha juventude e ninguém naquele
tempo ficou indiferente às capacidades vocais que Robert Plant evidenciava
(ouça-se "Whole Lotta Love" (1969)). Com o fim dos Led Zeppelin o período
áureo do Rock terminou e muitos dos grupos oriundos dos anos 60 estavam em
decadência.
Dadas as características vocais de Robert Plant seria de temer o seu futuro
artístico, pois uma voz daquelas não se aguenta para toda a vida. No entanto,
Robert Plant soube moldar a sua música nova e a interpretação de êxitos
antigos ao envelhecer da voz e hoje é ainda com muito agrado que se ouvem as
novas gravações. Inteligentemente, a vertente Folk ganhou peso e os
acompanhamentos vocais de Alison Krauss ou Suzi Dian servem na perfeição.
É o caso do álbum mais recente, "Saving Grace", publicado em Setembro de 2025.
Se bem que "Meanwhile" tenha sido editado digitalmente em 2024, a forma física
só apareceu em 2025 e por isso aqui incluo-o. Trata-se do último trabalho de
Eric Clapton, essa verdadeira lenda viva da música popular. Actualmente com 80
anos efectuou em 2025 tournée pela Europa e também ao Japão e EUA, para
2026 já estão previstos novos concertos sendo os mais próximos em a Madrid e
Barcelona.
Sem o encanto de outros tempos, pelo menos para mim, continua um percurso
seguro ancorado no Blues-Rock ao qual teve sempre ligações. "Meanwhile" não
encanta, mas também não desilude, é de audição muito agradável.
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Com grande nostalgia por outros tempos ficamos com "Moon River", um tema de
Henry Mancini de 1961, gravado em 2023 em colaboração com Jeff Beck poucos
meses antes de falecer.
Vai longe o tempo de "Santana" (1969), "Abraxas" (1970), "Santana III" (1971)
e "Caravensarai" (1972), álbuns que na altura muito apreciei pela inovação que
a música de Carlos Santana então representava. Rock Latino assim se designaram
aqueles sons que misturavam o Rock, o Jazz e a música latina que Santana e
restantes músicos tão bem cultivavam.
Depois foi a consagração de uma carreira notável sempre a primar pelo bom
gosto pese alguma aproximação ao Pop Mainstream.
Santana sempre apresentou uma identidade sonora fácil de identificar logo aos
primeiros acordes da sua guitarra, uma característica que parece ir-se
perdendo na música feita hoje em dia: identidade.
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Carlos Santana é um sobrevivente da década de 60. Actualmente, com 78 anos,
continua em grande actividade quer em termos de concertos quer em gravações.
2025 viu ser publicado "Sentient", uma compilação de temas em colaboração
com Michael Jackson, Smokey Robinson, Miles Davis, Paolo
Rustichelli, Darryl “DMC” McDaniels e a sua esposa Cindy Blackman Santana.
Inclui três temas anteriormente não publicados.
"Blues for Salvador" é o tema escolhido. Tema incluído, originalmente, no álbum com o mesmo nome, editado em 1989 e que mereceu um Grammy para Best Rock Instrumental Performance.
Definitivamente, não tenho dado a devida atenção a este meu projecto iniciado
no ido ano de 2014. Outros motivos de interesse, como a fotografia, são agora
dominantes e a idade também já não ajuda na manutenção praticamente diária que
em anos passados fiz. A paixão pela música, essa mantem-se e faz com que pelo
menos uma vez por ano aqui volta para dar conta do que mais ouvi no ano
acabado.
2025, foi, talvez, o ano que menos discos adquiri, o que revela, por um lado
que a música actual tem sido menos atrativa e aquela efectuada pela geração de
60 é cada vez mais diminuta e por vezes esgotada em termos de inovação. Mesmo
assim alguns que aprendi a admirar ainda no final dos anos 60, tinha eu 13, 14
anos, teimam em continuar a editar, seja com novas gravações ou recuperação de
vastos e importantes arquivos. Eis alguns nomes: Van Morrison, Neil Young,
Joni Mitchell, Eric Clapton, Carlos Santana, Ringo Starr, Robert Plant, Cat Stevens, etc..
Os dois ex-Beatles ainda vivos mantêm-se no activo e não abandonam os
estúdios. Depois de Paul McCartney ter editado em 2024 "One Hand Clapping" com
gravações efectuados com os Wings em 1974, disco que passou quase
despercebido, em 2025 é a vez do simpático Ringo Starr publicar logo no início
do ano, "Look Up", um disco pró Country que, apesar das críticas positivas não
teve melhor destino que o de Paul McCartney.
Um disco mediano com Ringo sem
grande voz, nunca teve, mas, mesmo assim, um bom antídoto para os dias
sombrios que vivemos. Peace and Love, Ringo!